Abrindo os olhos em Shangri-La

sleeping-woman

acordo sem querer abrir os olhos
cansados e remelentos
com o peso do dia anterior,
mas abro de qualquer maneira,
por mais que os putos
não queiram me obedecer
com muito custo obedecem,
sinto-me debaixo d’água
com cloro
de olhos bem abertos,
vejo tudo turvo e
me mexo um pouco
lutando arduamente com os lençóis,
maldito polvo que me prende
como uma camisa de força.
liberto-me parcialmente
e procuro o celular
para saber a hora,
não que eu me importe
ou que faça alguma diferença
é apenas força do hábito.
o não encontro
espero não ter perdido mais um
tomo um gole d’água
e vou para a varanda
fumar.

as ultimas horas
de escuridão
ainda persistem,
meu horário preferido,
a fundição temporária
entre a luz e escuridão,
o bem e o mal,
o equilíbrio de tudo,
que dura apenas
alguns minutos
e fim,
assim como o nosso
equilíbrio,
eu amo isso.
dou umas tragadas
sem vontade e
largo o cigarro na metade.
salivo, cuspo na grama
e sinto o primeiro indício
de ressaca que está por vir.
deito novamente
coloco a camisa de força
abraço o polvo e nada acontece
viro para o lado e
lá está ela
perfeitamente envolvida
como se o lençol
a cama, o travesseiro
e mais tudo no mundo
tivesse sido feito na medida dela
um pecado chamado perfeição,
um ser perfeito
um mundo imperfeito.
observo as curvas
que aquele corpo
indescritivelmente glorioso
faz no lençol
vejo a marca de sua roupa de baixo
através dos panos
fico excitado
penso em acorda-la
para a luxúria
mas a cena era divina demais
para estraga-la com sexo,
destruidor de lares.

aquilo era como uma pintura
gravada nos salões “VIP”
do paraíso pela eternidade,
se esta pobre alma
que vos escreve soubesse
pintar
ou fosse dotado de qualquer
habilidade
com desenho
seria um imortal
deixando amadores como
Da Vinci, Pollock, Dalí
Rafael, Michelangelo e etc
no esquecimento!
mas não possuo nenhum
talento para tal
então eles continuam por ai,
é melhor assim
a cena continua só minha.

me aproximo um pouco
e sinto o cheiro dos cabelos
que escorrem pelas suas costas
como uma cachoeira
em Shangri-La,
mais lisos que ceda
e macios como a alma
de um recém nascido.
sou transportado para
o mais perfeito jardim
que não existe
defronte da mais bela flor
que não existe,
ainda bem
pois se sua existência
fosse palpável
beija-flores se matariam
aos montes
abelhas guerreariam
entre si
e encararíamos
extinção em massa
por egoísmo territorial,
a morte e renovação
de tudo!
até que isso
não soa tão mal
soa?

me pergunto
como uma mulher
dessas resolve
compartilhar sua história
com a minha?
como?
um perdedor perdido,
que peida toxinas nocivas até
para tartígadros,
arrota, mija de porta aberta
e não tem nenhuma ideia
do que quer da vida.
cujos os únicos talentos
são beber, fumar
e talvez escrever,
TALVEZ.
que se afoga em ressaca
quase que diariamente
e tem uma compulsão
enorme por dormir até tarde?
por essas e outras
a considero umas das pessoas
mais loucas do mundo,
graças a Deus.
merda cara,
a disney manja das coisas
com todas aquelas histórias
de dama e vagabundo
bela e a fera e etc
a vida (a minha) imitando a arte
ou quase isso.

não tenho muito
a oferecer
além de palavras batidas
mas por algum motivo
etéreo, ela continua
e eu continuo.
ela se vira
abre os olhos
e depara comigo
enquanto a olho,
já nem me lembro
quanto tempo estou ali
de olhos abertos,
ela me pergunta
“oi amor, o que você está fazendo?”
respondo
“nada demais amor
só olhando para você
babando e roncando”
ela sorri,
eu vejo o céu
infinito em beleza
e estou feliz
tão feliz quanto é possível ser
nesse mundo azarão
e ainda tem uns
filhos da puta que dizem
que Deus não existe.

Saulo Matos

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