Entrevista com Adalberto Rabelo, compositor da banda Vespas Mandarinas

Matheus Peleteiro – Após o Animal Nacional, um disco homogêneo que, de certa forma consagrou vocês, o que influenciou nessa miscelânea de gêneros do novo disco? Houve influência do que estavam ouvindo? Do momento da banda?

Adalberto –  A gente ouve essa miscelânea aí, sempre ouviu. A gente tem um disco anterior às Vespas que tem Genival Lacerda e Jards Macalé participando Acho natural, a música não pode ficar restrita a nichos como quer o indie brasileiro.

Matheus Peleteiro – Algumas bandas independentes tem se envolvido mais com o pop ultimamente, o que tem permitido até mesmo a entrada de canções na rádio, como a Maglore e a Medulla em seus novos discos, que tiveram uma ótima repercussão. A Vespas agora parece se relacionar também com o pop, no entanto, assim como a Maglore, sem perder a essência do que tem a dizer. Acreditam que o rock está “compreendendo” a ideia do Emicida no rap, de “usar os meios sem deixar os meios usar nois”?

Adalberto – Acho legal que se toque na rádio, é a maneira mais democrática de atingir o público. Eu acho essa coisa de nicho um elitismo travestido e essa galera que o faz pretensiosa, metida a dona da verdade. Em relação à estética, tudo que está nesse disco faz parte do que a gente tem sempre falado que influenciou a gente. Desde Ira a Gang 90, nunca dissemos que era só guitarra. A música brasileira é rica e a gente gosta de muita coisa legal fora desse espectro da distorção. Esse lance do Emicida o Raul já falava, né, ele falava que tinha que saber transar o sistema sem perder a essência. Então, não é uma coisa nova, mas que bom que tem mais gente abraçando a ideia de atingir mais gente ao invés dos entendidos de plantão que acham que sua chancela é mais relevante. Não é, relevante é o público.

Matheus Peleteiro – Muita gente costuma restringir essa mistura de ritmos, muita gente costuma restringir o rock, de certa forma, limitando-o. O que pensam sobre isso? O que pensam sobre a liberdade no rock?

Adalberto – Acho bobo. Acho limitado. Essa ideia de que rock tem alguma pureza, tem não, é uma forma de manifestação, como muitas outras. E tem mais, R´n´B é rock and roll, depois que o rock virou rock, virou mais branco e mudou o nome do R´n´B pra dar uma ideia de arte superior ao rock , super elistista a concepção, mas a verdade é que as linguagens da música popular são todas permeáveis e devem ser permeáveis. Pra mim não é cabível que depois de eras de misturas ainda tenha gente que ainda fale de bom e velho rock. Que rock? Elvis, Pink Floyd, Sex Pistols, Happy Mondays, PIL, REM? Além da qualidade, que mais essas bandas tem em comum, né? Se for ficar indo atrás de crítico, tentando agradar gente que adora cagar regra, só vai ficar restrito àquele séquito underground que vai esperar você morrer pra dizer que te “descobriu”.

Matheus Peleteiro – As composições da Vespas costumam dialogar com a literatura, como o título da canção “o herói devolvido”, em referência ao livro homônimo do Marcelo Mirisola, e, creio eu, “o homem sem qualidades”, em referência ao livro do Roberto Musil. O quanto a literatura influencia nas canções da banda?  A canção “Carranca” se assemelha a carta escrita pelo Charles Bukowski a uma das suas ex mulheres, já a “e não sobrou ninguém”, rememora uma ideia trazida num poema do Bertold Brecht há anos atras. Houve influência literária nesse novo disco (Daqui Pro Futuro), ou foram coincidências da arte, que se renova e mantém ideias sempre atuais?

Adalberto – Houve, sim. São referências mesmo a esses livros, pequenas dicas do assunto que está sendo tratado, entrelinhas.Tem um monte de referência, sim, tem Leonard Cohen, tem Kubrick, tem Willaim Burroughs, no Expresso Nova, tem Inutensílios, Leminski, tem várias, essas que lembro mais agora no momento. Mas a ideia é partir dessas ideias e dar uma segunda leitura a elas, pelo uso numa canção pop.

Matheus Peleteiro – A Vespas Mandarinas se caracteriza por ser uma banda de composições irreverentes, iconoclastas, de certa forma, algo que vem se perdendo no rock contemporâneo. Como é a repercussão disso no cenário? Digo, vocês sentem que o público que reconhecem essa essência ainda está por aí, disperso, ou acreditam que o rock vem perdendo a força por que as pessoas estão parando de escutar?

Adalberto – Não sei dizer, man. Espero que sim, é o que posso responder.

Matheus Peleteiro – Com um segundo álbum lançado com tantos grandes nomes como Edgar Scandurra, Leoni, Samuel Rosa… e sucessos mais recentes, como o Tagore, o que esperam Daqui Pro Futuro? Gostariam de mandar um recado para o público?

Adalberto – Espero que as pessoas gostem, mas também espero muita porrada. Quanta banda aqui, Paralamas, Titãs, já não tomou essa porrada levianamente e até hoje tá ai, né? O importante é fazer o que gosta. Não sei muito que recado deixar, espero que as pessoa façam seu julgamento livremente. Eu só posso dizer que tô orgulhoso de participar do disco e honrado com o endosso de todos esses músicos que admiro, inclusive o Café Tacuba que curtiu a versão meio Odair José/Jovem Guarda que a gente fez. Ah, e fora a ditadura do bom gosto.

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