O dia em que chorei num bar recém inaugurado – Saulo Florentino

bigsur15

abriu um bar novo na cidade,
litrão barato,
ultimamente a cidade que
um dia foi chamada de “Nova Dubai”
estava cheia de bares novos,
e igrejas novas,
e novos desempregados
e desempregados novos,
eu era um deles,
nunca fui a Dubai,
mas deve ser um
pouco melhor por lá.

cheguei junto com o dono,
– E ai cara, como foi a inauguração?
– Foi foda irmão, quase tive que fechar a rua.
– Maneiro, então desce aquele litrão de Brahma gelado ai.
pessoas chegaram, pessoas se foram,
eu estava sem dinheiro pra continuar bebendo,
eis que chegou um amigo que acabara de receber
e não permitiu que eu fosse embora
declamando a poesia dos bêbados
da sarjeta “HOJE É TUDO COMIGO”.

continuei bebendo então,
eu bebia demais e acho que meu amigo
se arrependeu,
mas era tarde demais,
estávamos chapados,
e chapados são ricos.
avistei um senhor escorado
em uma porta de loja fechada
e fui ter com ele,
eram duas horas da manhã,
o mundo não estava nem ai
para nós.

ele me contou sua história,
vinha da terra de todos os santos,
a bela e alegre Bahia,
terra também do Pelé,
grande escritor e amigo,
quinze anos se passaram
desde que ele chegou por
estas bandas tentar ganhar
a vida,
nada aconteceu,
as bençãos dos santos
Baianos o esqueceram
e o Cristo Redentor não
o viu,
estava doente,
não tinha família,
mas por um momento
quase sublime
senti seus olhos
mais vivos que os meus.

passei meu endereço,
meu telefone,
o endereço do meu trabalho,
e então me levantei da calçada
entorpecido com sua história
e com os litrões de Brahma,
o chamei para sentar em nossa
mesa, ele não quis,
catei moedas com todo mundo,
ele havia dito que queria um guaracrack,
comprei e dei a ele,
voltei pra mesa
completamente perdido.

não conseguia esquecê-lo,
ele estava ali na minha frente,
eu não conseguia mais beber,
não era justo, eu era um merda,
ele veio da casa do caralho
lutou e não conseguiu,
e naquele corpo moribundo
existiam olhos com mais vida
que os de todos nós,
então eu chorei
e ninguém entendeu
meu desespero,
pois ignoravam o que
acontecia ali,
a realidade das coisas
é como ácido no coração
as vezes.

peguei minhas coisas
e fui embora,
aquelas haviam sido
algumas das lágrimas
mais sinceras da minha
vida,
conheci um sobrevivente
que perdeu,
mas não desistiu
e isto é nobreza,
sim, isto é nobreza
de mãos dadas
com a miséria,
mas ninguém quer
saber.

afogamos nossos problemas
e os problemas do mundo
em qualquer lugar que nos
aceite,
e as vezes nossos sonhos
continuam só sonhos
no fundo de um copo
vazio.

Saulo Florentino

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