A VIDA É UMA GRANDE PIADA! – um conto para Sergio Sampaio

Estava saindo de casa, quando me peguei distraído com algo que logo ficou confuso, embaçado e se dispersou na minha mente. Levando em conta a constante situação de pânico e ansiedade que costumava me encontrar, em decorrência dos diversos absurdos doentios da sociedade, aquilo era, no mínimo, estranho. Mas, o fato é que eu andava pela rua, distraído e sem medo, o que era incomum para mim, e me parecia, ao menos até aquele momento, impossível.

Descendo a ladeira habitualmente para ir ao ponto pegar o ônibus que me levaria até o trabalho, assisti, as 5:40 da manhã, um bêbado cambaleante caindo de barriga para cima na calçada. Fiquei preocupado de que estivesse desmaiando, e desacelerei o passo para ver o que lhe aconteceria naquele momento.

Me aproximando do poste o qual ele se apoiava, percebi que ele se virou de lado, e demonstrou estar ofegante. Preocupado, fui em sua direção, verificar se o que acontecia podia ser o caso de um surto de apneia ou qualquer situação que necessitasse de cuidados médicos, mas, chegando lá, vi que ele só estava chorando.

Perguntei se ele precisava de algo, e ele me respondeu que sim, mas que só uma pessoa podia entender a sua necessidade. Insisti, perguntando novamente, se poderia ajuda-lo de alguma maneira, mas, ao invés de me responder, caindo em prantos, ele começou a cantar, como um bom nordestino que sofre, que sente e que sangra por ter um coração sentimental.

De sua boca saiam algumas palavras desconexas, mas, após prestar um pouco de atenção, consegui decifrar algumas das frases recortadas que saíam do seu peito. Ele dizia: “Embora eu siga adiante, eu sempre fico onde … passo …. sempre deixo um pedaço de mim… “Nossa, mas que bêbado de bom gosto!”, pensei, seguindo o meu caminho.

Entrando no ônibus, já esperava que surgissem diversos pregadores recitando versículos e ideias Deus sabe de onde, como todos os dias costumavam surgir, afinal, estava acostumado com o sincretismo religioso brasileiro, entretanto, um pedinte abriu uma bíblia, e começou a recitar com ênfase: “Suje os pés na lama e venha conversar comigo! Chore, esqueça o drama, e venha aliviar o amigo! ”. Achei que estava ficando louco, e talvez estivesse mesmo, de fato, minha sanidade sempre fora uma enorme dúvida, mas não me importei e apenas sorri.

“É tudo uma enorme coincidência”, disse a mim mesmo, tentando me convencer de que aquele estava sendo apenas mais um dia curioso em meio aos dias repetidos que aconteciam sem cessar. Contudo, não pude deixar de ficar encabulado quando o ônibus passou no penúltimo ponto antes do lugar em que ficava o edifício onde trabalho, e, no meio da multidão, uma moça que costumava encostar-se sempre ao meu lado, escutando música eletrônica no celular num volume elevado, colocou para tocar “Não tenha medo não”, a mesma canção do Sergio Sampaio que o tal pregador recitara momentos antes.

E eu não pude deixar de me questionar, “puta que pariu, será que todo mundo virou fã do Sergio Sampaio, ou o álcool da noite passada provocou em mim um efeito duradouro e positivo? ”. Meu olhar pasmo denunciava minha situação no retrovisor, e, foi nesse momento, que um homem alto que usava um terno elegante, percebendo o meu desconforto, se aproximou de mim, em meio à multidão do ônibus que naquele momento já estava socado de gente, e sussurrou: “As pessoas são uns lindos problemas”.

Naquele momento, aquilo foi demais para mim. No mesmo instante, me lembrei da mulher que eu costumava chorar pensando, toda vez que escutava uma música triste, e de todas as relações pessoais que eu destruía, por ama-las, e por não suportar o grau de complexidade que elas desenvolviam em minha vida dia após dia. E comecei a me sentir tonto nesse momento, assim como costumava me sentir quando percebia que estava dentro de um sonho e caía de um precipício, acordando com os pés balançando.

Foi quando percebi que não estava acordado, que não estava no mundo real. Pensei em tentar me beliscar ou fazer qualquer coisa que dizem que te faz acordar de um sonho, como pular de algum lugar alto, mas eu não queria sair dali. Eu estava num mundo onde todos entendiam e escutavam Sergio Sampaio, e, já que estava há milhas distante da realidade, porque não poderia imaginar que poderia encontrá-lo ali? Ele só poderia estar no céu, e eu, onde estava? Estaria eu morto?

Bem, era um questionamento interessante, mas, sonhos são sonhos, e quando há algo intrigante neles, este algo logo desaparece, como folhas num temporal. Vivo ou morto, decidi descer dali e degustar o que podia até mesmo ser o céu, chegando a pensar que talvez Deus estivesse me enxergando ali, como um simples carneiro no pasto.

Me conscientizei do que estava acontecendo, e de um momento para o outro, me convenci a me entregar a ilusão que criei, ainda que não tivesse ideia do local em que estava. Minha consciência parecia estar reduzida ali, e tudo que sabia era que, na onda em que entrei, enxergava como se estivesse sendo guiado por suas canções. As pessoas que todos os dias passavam por mim caminhando sem pretensões ou sequer propósitos, agora me pareciam ter um universo dentro delas, sendo as que eu costumava ver, apenas cordeiros pagando pecados, e eu lembrei delas sentindo uma enorme compaixão, por elas, e pela pequenez e ordinariedade que exalavam perante aquela terra de Sergios Sampaios.

O mundo agora parecia brilhante, e todas as canções pareciam cantar campos de morango para sempre. Na recepção do edifício, avistei uma moça morena de cabelos cacheados que exalava charme com seu andar incrivelmente atraente, vestindo uma camisa que estampava a frase “eu tenho o dom de causar consequências”, e cheguei a imaginar que tinha finalmente encontrado a mulher da minha vida. Foi quando um policial se aproximou e lhe deu um beijo na boca, fazendo eu, que já tinha aprendido com um grande homem, que, para o sol brilhar, a lua há de ir para outro lugar, tomar outro rumo. E eu, que costumava sentir pavor de engravatados, banqueiros, policiais, e qualquer um que tivesse de usar uma farda, por conta do medo que sentia de ter de me tornar um deles um dia, agora sentia inveja de um deles dentro da minha própria ilusão.

Adiantei o passo, e peguei o elevador para a rádio em que trabalhava gravando entrevistas e podcasts. Um mundo de Sergio Sampaio parecia perfeito, mas, as pessoas estavam consumindo-o em excesso, e então percebi que Sergio Sampaio podia ser nocivo em certas circunstancias. As pessoas tinham se tornado ácidas, e começaram a cuspir verdades cortantes em meus ouvidos, e nos ouvidos alheios também, verdades que incomodavam. Uma moça loira de blusa social encostou no meu ouvido e sussurrou: “não me espera pra beber seu veneno”. Eu teria sentido tesão numa situação normal, mas, ao ver a seriedade dos seus olhos que brilhavam ao dizer aquilo, um ar de pavor se instalou em meu corpo.

A porta do elevador se abriu, e senti vontade de correr como se estivesse numa crise de pânico. Tentei mesmo fazê-lo, mas, dois seguranças enormes me pararam e, me carregaram em direção à um corredor escuro. Senti medo e tentei reagir, gritar, ou até chutá-los de modo que me largassem. Porém, um dos seguranças apenas gargalhou com o meu chute, e sussurrou em meu ouvido – eles pareciam gostar de sussurrar – “não tenha medo não”.

Fiquei aterrorizado com o riso doentio do segurança, mas decidi imaginar que estava mesmo no céu, e que, talvez, Sergio Sampaio estivesse assistindo a tudo isso num trono qualquer. Fechei os olhos e tentei me convencer de que estava apenas chapado ou coisa do tipo, até que consegui ouvir, dentro da minha cabeça, alguém cantando, lá no fundo: “vem, não tenha medo, não tenha medo, não tenha medo, não”. E eu podia jurar que era Sergio Sampaio cantando dentro de mim.

Quando abri os olhos e olhei para cima, tudo que podia ver era uma parede tão branca quanto imaginam o paraíso. Escutei o barulho de algo pingando, e notei que era apenas o soro sendo aplicado em minha veia. A embriaguez tinha me vencido na noite anterior, e talvez a injeção de glicose que tomei tivesse sido a responsável por me privar da amargura dos meus pesadelos. Talvez tivesse sido ela a culpada por adocicar os meus sonhos. Sim, sabia que tinha sido ela. E, nesse momento, eu gargalhei. Ri de tudo, porque, agora eu estava acordado, e a sua voz ainda ecoava em minha cabeça. A vida é uma grande piada, meu amigo. A vida é mesmo uma grande piada, Sergio Sampaio. A vida é uma grande piada!

Matheus Peleteiro

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