O SUICÍDIO DE UM POETA QUE NÃO TEVE CORAGEM DE SE MATAR

Ser poeta no século 21 era uma coisa engraçada. A diversidade havia se expandido e nos criticávamos como uma maneira de fortalecer nossos egos, que variavam a sua maneira, mas mantinham o preciosismo e a vaidade residindo em nossos versos.

Os que se tornavam mais famosos, tratavam de criticar somente os mais famosos que eles, afinal, se comparar às novidades, por melhores que fossem o rebaixavam no meio literário.

Me tornei poeta por acidente. Já passava das duas da manhã e estava deitado sem conseguir dormir. Formado há mais de 2 anos em direito após ter abandonado os cursos de administração e engenharia sem sequer um sinal de qualquer trabalho digno, sentia que tinha falhado em tudo que tentei. Uma crise de ansiedade tomara conta de mim, e nada parecia poder me proporcionar uma boa noite de sono a partir de então.

Foi quando peguei o teclado do computador, e proferi através dele gritos e ofensas a tudo que me incomodava, de uma forma ou de outra. Entre palavrões e palavras românticas e utópicas, mandei a minha insônia para longe, e então tudo pareceu estar mais leve ao meu redor.

Havia me tornado um poeta. Não precisava que ninguém soubesse ou me dissesse para que tivesse certeza. Se eu era um bom poeta, esta seria uma outra discussão.

E quando percebi que era poeta e que a ânsia de imortalidade que a poesia instala em cada um de nós já ardia em meu peito, me perguntei “que diabos poderá me tornar eterno?”. E depois de muito ter lido, eis que tive uma genial ideia.

Analisando o apreço e as citações dados aos poetas e escritores que cederam a loucura ou ao suicídio, era simples, eu só precisava cometer suicídio e deixar algo pelo que pudessem lamentar pela minha morte. Mas eu não queria morrer. Peguei uma folha de papel, escrevi alguns versos em tom de lamento altruísta (sabia que altruísmos falsos sempre consagraram heróis”) e subi até o topo do edifício comercial mais alto da cidade.

Não demorou muito para que uma multidão se aglomerasse lá em baixo. Havia jornalistas por todos os lados. “Ele vai pular” era o que eu não ouvia mas sabia que estavam falando.

Algumas pessoas batiam na porta do terraço, mas eu havia fechado com um cadeado inquebrável, e só eu possuía a chave.

Após alguns minutos em que gerara um razoável furdunço pela cidade, soltei uma folha de lá de cima. Nela haviam versos heroicos, do tipo “morro em nome dos que choram nas filas dos hospitais/ morro em nome daqueles que distribuem sorrisos e bebem lágrimas…”.

Alguns repórteres se estapearam para pegar a folha, que parecia cair em câmera lenta. Um deles até derrubou uma senhora enquanto tentava alcançá-la. Tudo seria agora só uma questão de tempo.

Cerca de duas horas se passaram e tudo tinha se tornado diferente. Suicídios são frequentes, mas há um quê de romantismo no suicídio de um poeta. Então, o possível suicídio agora repercutia em todo o país. Nos principais canais, cobriam ao vivo cada movimento meu, e cada passo que dava no terraço.

“Coitado, poeta é bicho que sofre. Nem corno sofre tanto. Isso se o poeta não for também corno.”, “Ele deve ter sido corno. Homem romântico sempre se mata por mulher”. Era o que não ouvia mas sabia que estavam falando.

Já podia imaginar muitos poetas escrevendo poemas e citando o meu suicídio como resistência, ode à loucura ou até puro apreço a tristeza, sentimento tão gentil e inspirador, mas, estava certo de que não queria morrer.

Após mais algumas horas, quando as pessoas esperavam com nervosismo e ansiedade o meu suicídio, me sentei com as pernas para rua, e comecei a chorar. Teatralmente, é claro.

Um helicóptero do corpo de bombeiros chegou para me resgatar e quando me levaram até o chão, era evidente a expressão de pena que todos sentiam. Um poeta que não teve coragem de cometer suicídio era algo muito triste. Estavam todos decepcionados.

É verdade que os poetas se consagravam através do suicídio, mas eu era diferente, eu achava suicídio uma tolice, e me divertia com os absurdos que haviam nos desejos e nos exemplos das pessoas.

Passei duas semanas trancado em casa. Só saia para o mercado por ter a necessidade de me alimentar. Neste tempo, recebi e-mails de diversas grandes editoras. Não respondi nenhum. Não queria que soubessem como eu estava. Ainda não. Pesquisava meu nome no Google e lia nos blogs e nas redes sociais diversos poemas em torno do meu suicídio frustrado. Todos pareciam compadecidos à dor que eu estaria sentindo após ter falhado num ato tão triste. Por um poeta ter falhado num ato tão triste. Os poemas escritos em minhas redes sociais eram agora compartilhados excessivamente a todo momento. Achei até engraçado quando vi um editor anunciando uma antologia chamada “a dor de um poeta que não consegue se matar” inspirado em mim.

Passadas as duas semanas, me manifestei nas redes sociais. Com muita humor e sarcasmo, contei que em momento algum pretendi cometer suicídio. Assumi que havia desdenhado da humanidade é provado um ponto. Que o marketing consagra um poeta. Que os atos consagram um poeta, e não um poema. Irônico, não? Fui chamado de gênio e de insensível, e sabia que ambos tinham razão.

Foram muitas as gargalhadas proferidas por mim enquanto lia os poemas, é verdade, mas, após alguns meses, quando já razoavelmente reconhecido no meio acadêmico e, principalmente, no meio popular, a culpa por não ter cometido suicídio repentinamente se instalou em minha mente e começou a me assolar. Pelo que me lembro, sequer pretendia cometer suicídio, mas isso agora já não importava. Os poemas que li na internet pareciam me assombrar, e logo não tinha mais certeza se não me matei por ter planejado me tornar imortal através das manchetes ou por puro medo. As ideias se confundiam em minha cabeça latejante, e a dor se instalara em mim de duas diferentes formas: através da frustração e da mentira. Teria eu planejado aquilo, ou fora tudo apenas um surto de um poeta que não teve coragem de se matar? Teria eu fugido da dor e assim falhado com o meu ofício poeta? Os poetas mortos estavam agora me atormentando sem sequer se utilizar de versos. Eu não devia ter desdenhado deles.

E tudo que me restou foi a dúvida: terei eu falhado em tudo que fiz na vida?

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