um toque na ferida

— Sua banda tem qualidade. Porque não a inscreve num desses programas de televisão?

— Eles só dão espaço para o que há de ruim.

— E porque não tenta participar para mostrar o que é bom?

— Perderíamos nossa essência. Não queremos participar de um programa que só divulga merda comercial.

— E como você acha que vão parar de divulgar toda essa merda, se todo artista de talento se recusa a participar alegando a mesma coisa? Como espera que o comercial se torne aquilo que diz alguma coisa?

— Ah, nós só não queremos nos vender.

— Sabe o que me parece? Me parece que vocês querem apenas manter a inércia das reclamações usuais. Vocês temem a frustração de receber críticas de um bando de Zé ninguém das indústrias que massificam a música.

— Vai se foder. Somos uma banda independente e temos nossos princípios.

— Entendo. Só lamento saber que, pelo jeito, terão de ficar se lamentando na internet pela inversão de valores, e também pela falta de oportunidades para crescer por toda a vida. Desejo boa sorte a vocês, com seus discursos dirigidos para 100 pessoas. Espero que um dia a coragem de se arriscar e de mandar para o inferno aqueles que os julgam apareça nas suas vidas.

O guitarrista se levantou para me peitar, e me empurrou na parede.

— Quem você pensa que é para dizer que EU não tenho coragem, SEU FILHO DA PUTA?

Cuspi em sua cara e recebi um derby na barriga que me deixou sem ar. Tentei me manter de pé, mas logo recebi um soco no nariz e comecei a ver tudo turvo. Pude sentir o gosto do sangue nos meus lábios.

— Vem cá, isso, continue, desconte toda sua frustração pela sua falta de atitude em mim. Quem sabe assim a sua banda cresce na vida e você me agradece depois. VAMOS LÁ! ME CULPE PELOS SEUS FRACASSOS! — Disse, aumentando o tom, na tentativa de perturbar o seu juízo ordinário.

Ele partiu para cima de mim com os olhos meio fechados, talvez lacrimejando – o que não pude ter certeza por estar um tanto tonto – e caímos deitados, nos embolando no chão. Acertei um soco em sua boca, mas logo ele se virou contra mim e me imobilizou.

Eu estava sendo asfixiado pelo sangue que não conseguia engolir quando dois dos seus amigos da banda decidiram imobilizá-lo, impedindo que a luta continuasse.

Após gritarem algumas palavras que julgavam ofensivas, e dizerem que eu não passava de um fracassado, partiram, me deixando jogado na calçada.

Olhei para o céu e não pude deixar de relaxar e gargalhar de tudo enquanto saboreava o gosto salgado do sangue que ainda escorria pela minha boca. Era no mínimo curioso o quanto as pessoas se tornavam doentias quando tocávamos em suas feridas.

Matheus Peleteiro – trecho de um romance inacabado

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