Um trago no inferno

Um guindaste surgido sabe-se lá de onde trouxe-o de volta ao ar. No chão, impossível respirar. Nocauteado, mas ainda lúcido, os miolos abocanhados de raiva, sabia que, aos poucos, a coisa só piorava. No chão, a quentura da tarde ardia o almoço mal comido a voltar. O suor encrespava-se no corpo como cascas de feridas arrancadas por unhas violentas. O pior horário, o pior sol possível, os flagelos das calçadas todos entupindo o seu nariz, a boca, os cabelos, a barba. A vida em seu delírio mais baixo cutucava sem dó a sua morte. Algumas árvores invasoras, matadouras da flora nativa, zombavam de sua pestilência. Cheirava muito mal e tinha similitudes com o riacho esgoto que na esquina adiante, as merdas da alegre vizinhança coletava. O trânsito resfolegava sujeira por todos os lados, ventos de nojeiras humanas, ares tóxicos em modo tsunami, partículas de poeira que cegam.

Mesmo assim manteve os olhos abertos. Deixou os olhos e tudo o mais que cabia em sua raiva, ser castigado por estas mazelas urbanas. Não teve piedade de si. Caiu porque não aguentava mais manter-se de pé. Uma força mundo, de potência cruamente destrutiva, demoliu dezenas de andares de concreto sobre sua cabeça; e ainda que suas pernas tenham cedido lentamente, o tombo foi imediato. Resistiu sem saber do que se tratava. Explodiu ao chão sem poder defender-se de modo honrado. Decerto, quando essas coisas insuportáveis fazem suas tentativas covardes de nos humilhar, e não são poucas, diga-se, somos violentados de uma surpresa inaudita.

Um carro de polícia te agenda uma visita na rua. A rua quer foder contigo. Um policial aponta uma arma sobre sua cabeça enquanto outro te revista. Também de arma em punho, um terceiro, na retaguarda dos outros dois, fica posicionado rente ao veículo dando cobertura. Ao redor, todos assistem ao espetáculo, o horário é perfeito, o do café com tapioca que, é claro, alguém fez menção de oferecer aos homens fardados. Mãos na cabeça. Pernas abertas. Gostamos quando vocês são forçados a adotar um corpo vulnerável. Uma infinidade de porradas poderíamos aplicar nestes putos de moto. Só soçobra vontades fascistas em teu sorriso.

Estas espreitas desabocetam a paciência de qualquer um e terminam de torturá-lo de sua vilania. É muita oração bandida pedindo a Deus, aquele que sempre atento, devotando a fidelidade no comando, pede encarecido que enfiem sem reclamar, mais paciência no cu. É então que aquele, o puto caído, caceteia-se voluntário. Porra nenhuma parece que aconteceu. Tudo em volta, repara, ri-se de sua condição sub-humana. Gargalham imbecis em meio ao gargarejo de suas bebidas mofadas e mofinas. Não dão a mínima, nunca deram a mínima para os que caem na rua.

Foi demolido, sabemos, mas seus tijolos musculares, ainda que embebidos do deserto dessa vida porca, não foram vencidos. Enfraquecido sim, porém, não completamente esmagado. Tem o corpo embutido de substâncias materiais e imateriais que não se rendem. Ele beija ardentemente o chão em que pisa. Ele sente essa porra descaralhada com todos os seus sentidos, mas ele não é daqueles que fica em sentido. Sem sentido, sua derrota é um trago no inferno. O chão é duro, mas ali ele não pode ser enterrado. Soterrado, tudo bem, enterrado não, e fodam-se com todo amor às suas mesquinharias e quinquilharias. As suas diretrizes. O seu cafezinho com açúcar. O seu papel higiênico perfumado. A sua batata frita gourmet.

Neste chão grosso de solas de sapatos perdidos, a espuma que estoura da sua boca faz vibrar uma frequência nova. A queda fez durar uma vontade outra. Um rigor de alegria do qual ninguém pode tirar.

A respiração minguava aos poucos e aos porcos. Ali caído fazia uma colheita maldita dos podres urbanos, podres humanos. Inumano, ele disse. Um sopro ínfimo, mas virulento o suficiente para que seus poros se abrissem como narinas desejosas de ar, mais ar, muito ar. Seu corpo, empestado de tóxicos ambulantes, filtrava tudo a uma velocidade abrasadora. Passou a queimar mais do que o calor do sol. Algo em si fez-se combustível inominável, força inclassificável. Sua boca, inclusive, pediu um cigarro. Conseguiu, não se sabe como – e nem o poderia -, respirar novamente neste patamar rarefeito de vidas possíveis. Seu corpo calejado de machucados ergueu-se em um solavanco combativo. Na calçada onde estivera amofinado, não se sabe por quanto tempo, findou-se alguma coisa.

Fez com sua queda alguma obra de cosmos imperceptível. Algum objeto mundo do qual prescindia em inevitável estupor. O momento mortis do qual ansiava. Uma implosão de si e de sua raiva incessante. A posse de algo que o possuía de gangrenas em todos os órgãos. Uma devoração crua e cruel dos vícios que o faziam culpado de sua vida em passos marginais. Levantou-se mais duro, mais sensível, mais perigoso, mais desejoso de fissuras. Sentiu-se bem ao começar a caminhar e sentir-se como uma ameaça aviltante a este mundo pegajoso. Estou com sede e faminto, pensou, e parou no primeiro pé-sujo que encontrou.

Artur Dória

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