Ofício 666

a-desintegracao-da-persistencia-da-memoria-de-salvador-dali-2Na minha cabeça uma ampulheta gigante se forma e o tempo espirala, aos poucos, em espirais longas, lentas e débeis que me fazem sentir náuseas e uma necessidade absurda de regurgitar a janta de ontem na tela do computador, de propósito. O tic tac frenético do relógio escassamente pendurado na parede se alia ao som de dedos tamborilando teclados e cliques de mouse. Sinfonia de repartição. Relatórios, ofícios, manifestações de apresso a gente desconhecida, documentos produzidos por mim mas firmados com nome que não o meu e a vida que se esvai diante dos olhos a cada carimbada, a cada correspondência enviada, a cada telefonema atendido com voz séria de gente que se sente importante. Pausa.

Lá fora uma fumaça branca, imitação de neblina, bafeja dos bueiros enquanto lindas mocinhas loiras se divertem em suas bicicletas. Uma árvore grande, que não consigo identificar a espécie, embora possa apostar que se trata de um jacarandá, o que é uma grande mentira já que tenho certeza que nunca vi um jacarandá, inicia sua batalha contra o inverno, teima em manter vivas folhas tristemente pegadas aos galhos já secos, primeiras vítimas de um inverno que promete ser rigoroso. Da janela, obstruída por problemas que prefiro não resolver agora, sinto que o céu está azul, tão azul quanto numa longínqua tarde de verão em que chorei ouvindo meu primeiro blues. E agora estou no delta do Mississippi estalando os dedos e compartilhando uma garrafa de cerveja com Muddy Waters. Ele me ri com os olhos, cúmplice, assim como fazem as pessoas velhas que cultivamos bem-querença e desejamos que a Morte se esqueça delas, por descuido. Vejo que a nova estagiária passa na calçada e faz quebrar os galhos secos com passadas firmes e decididas, incoerentes, o nariz empinado para a esquina, e eu suspiro. A vida é boa, concluo.

De repente a música para, o calor sensual do blues dá lugar a uma repartição fria e repulsiva. Me sinto terrivelmente só. E tome carimbos e manifestações de apresso e requisições respeitosas ao sr. prefeito e uma dor aguda que incomoda o lado direito do abdome como se alguém estivesse me cutucando com uma navalha uma, duas, três vezes. Apendicite, só pode ser apendicite, amanhã juro que vou marcar um médico (outra grande mentira). O copo de café, já frio, cai no chão. Desligo a luz, tranco a porta à chave, duas voltas, sempre duas voltas, e decido que este será mais um problema que deixarei para resolver amanhã. 

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