O sonho de um homem que sente falta

 

Não sei dizer quando aconteceu, mas, foi duro demais quando, pela primeira vez, percebi que um sonho contínuo, o qual vivenciará diversas vezes desde a minha infância, era somente um sonho, irreal no que tange ao concreto.

Como num sonho dentro de um sonho, lembro-me que sempre que me aborrecia, quaisquer que fossem os motivos, corria para aquela trilha atrás da minha casa, passando pelo areal, e dava de cara com o paraíso solitário e deserto, onde regenerava tudo que havia em mim.

Isso se repetira diversas vezes durante todos os meus mais de vinte anos, no entanto, agora, num momento em que decidira ir lá mais uma vez, dei de cara com o fim de um grande sonho que se reproduzia em loops.

Era um caminho longo, a travessia durava cerca de uma hora e vinte minutos, tempo em que caminhava sem me cansar. No caminho, traficantes e contrabandistas fugiam de olhos alertas, e bandidos dos mais variados se escondiam atrás das moitas. Não havia polícia ou qualquer ameaça para eles, escondiam-se de si próprios, talvez por isso eu andasse com a mais completa calma, entendia que quem se esconde, não quer ser encontrado, e quem não quer ser encontrado, certamente não perderia o seu tempo me procurando. Ainda assim, tinha certo medo de atravessar o longo caminho, mas almejava tanto o paraíso, que o caminho era uma ponte necessária.

Tenho em mim que este sempre fora um caminho comum, para um local o qual sempre tivera que revisitar ao decorrer dos anos, contudo, agora, em que tudo caiu por terra, me dói não conseguir descrever perfeitamente através de meras palavras como era aquele lugar em que imagens tão bem recentes e sólidas em minha mente, mas, certas características são impossíveis de se ocultar.

Havia aquele mar azul bem forte, cobalto cristalino, e um deserto imenso para todos os lados, com montes de areias tão brancos quanto uma folha de ofício. E em meio a isso, talvez umas três pessoas debaixo de guarda-sóis em diferentes extremos do lugar. Havia os ventos, tão fortes que balançavam os mares, o sol, e o mundo, mas que, sobretudo, não incomodavam. Pelo contrário, traziam uma paz de espírito que revigoraria o mais exausto maratonista.

Agora, lembrando, consigo enxergar que aquelas pessoas que se esbarravam em mim no caminho, eram apenas um reflexo do meu medo, que me mostrava que somente solitário, ou com alguns entes queridos e próximos, os quais vez ou outra foram àquele local comigo, poderia me sentir em paz.

É bastante doloroso perceber que aquilo que sempre pareceu existir jamais fora real, mas, taciturno e devaneante, ainda consigo enxergar tal lugar em minha mente. O céu vermelho num eterno pôr-do-sol, as gaivotas em sintonia, o mar invadindo a areia como uma tsunami que não gera estragos, e um clima de serenidade extrema exalado pelo vento.

Nunca tivera uma memória tão sólida de um sonho, e agora, sob lágrimas de saudades, a vida me remete a ele, como aquele que um dia já existiu, mas que, assim como tantos outros, foram reduzidos a lembranças pelo peso da realidade.

 

Matheus Peleteiro

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