Um encontro com o Velho

Anoitecia quando entrei num bar fodido da Califórnia e encontrei o velho de costas, com sua camisa apertada e seu cofrinho a mostra. De início, pensei estar tendo uma alucinação, mas ainda não tinha me utilizado de entorpecente algum.

Assustado, perguntei:

“Bukowski?”

“Não, sou só o filho da puta do Chinaski.” – respondeu ele.

“Mas você não estava morto?”

“Preferia estar. A Dona Morte teria me poupado muita coisa. Mas, desde que afirmei não sentir mais tesão por ela, ela passou a ameaçar me trazer de volta à vida. Inicialmente achei que não fosse lá um castigo. Pensei que ela estivesse apenas blefando quando dizia que tudo estava pior e ainda mais repugnante. Mas, desde que ela me trouxe de volta, não teve um dia em que não tenha desejado voltar para aquele buraco.”

“Deve ser um sonho” – falei em voz baixa para mim mesmo. Entretanto, verifiquei que podia me beliscar e sentir dor. De qualquer forma, fosse o que tivesse de ser. Sentei-me e resolvi conversar com o velho, ainda que tivesse sido uma mera obra da minha imaginação, não podia descartar tal oportunidade de qualquer maneira.

“Há quanto tempo está aqui?”

“E isso importa? Estou aqui há tempo suficiente para notar que a humanidade sempre pode piorar. Você por acaso é jornalista?”

“Não, mas sempre quis ser. Desisti quando notei que para ser bem-sucedido precisaria escrever sobre fofocas e moda. A modernidade é engraçada, Buk.”

“Não me importa. Engraçada? A modernidade fede, e é para quem tem paciência e certo senso de masoquismo. Se você quisesse ser bem-sucedido, teria posto uma bala nos miolos, assim como fez o Hemingway.” – disse o velho, exalando um terrível bafo de álcool e cuspindo de desgosto enquanto falava.

Notando que ele não estava muito para conversa, decidi tentar mostrar-lhe novidades que pudessem ser do seu interesse, e convidei-o para ir numa livraria comprar algum livro do Rubem Fonseca.

“Você acha que no inferno não tem biblioteca? O Rubem é ok. Um dos vivos mais lidos lá embaixo. É uma pena que tente refinar sua obra com citações que lhe deem certos aspectos de erudição. “

Pela sua expressão podia-se imaginar que houvesse certa rivalidade entre os dois lá embaixo. Ele nunca gostara de um concorrente à altura que não fosse o Fante ou o Celine.

“E o que você pensa da literatura lá de baixo, Buk? Os burocratas da literatura já não tem tanta voz. Poucos continuam lhes dando atenção. ”

“Em contrapartida, um circo está instalado. As pessoas tem se agarrado a toda espécie de cegueira. Qualquer maldito que escreva literatura suja é chamado de “novo Bukowski”. Qualquer um que fale sobre negros é acusado de estar desprestigiando séculos de luta dos negros, ainda que esteja escrevendo sobre elas. A ficção está sendo engolida pelo que chamam de realidade, e a literatura não está sendo bem digerida. O humor se tornou uma espécie de pecado. “

Olhei na cara do velho com espanto, puta que pariu, era o Bukowski! E ele continuou:

“Volta e meia transformam tudo que há de melhor em pecado. Fora a destruição que tem acontecido com a língua. Lumbersexual, que porra é essa? Li algumas notícias e vi essa coisa sobre estilo lenhador, uma espécie de hipster sei lá o quê. HIPSTER, há termo mais pejorativo que este? Designaram conceitos relativos até mesmo a propensão dos seres humanos de amar a forma de pensar do outro. Sapiosexual, se não me foge a memória. Diabos, depois de um belo par de pernas, o que mais estimula a paixão é o desafio gerado pela forma de pensar do outro. Não precisamos dessa destruição linguística fodida. ”

“Senti saudades de você, Chinaski. Tudo que diz faz todo o sentido. Gostaria que visse as manifestações sem pedidos, e as divagações em torno do feminismo e da apropriação cultural. As feminazis são capazes de arrancar a sua cabeça.”

“E você pensa que não vi? Essa coisa de apropriação foi a primeira frustração que tive. Imagina se não roubássemos uns dos outros. Veja se os romanos vem para cá combater essas moças que utilizam sandália gladiadora. Sobre as feminazis, prefiro que elas me matem logo, para que eu volte para aquele buraco, sou covarde demais para fazê-lo. Não quero estar aqui quando a humanidade assinar sua sentença de morte. ”

“Buk, você toparia dar uma entrevista? Poderia fazê-lo expressar tudo que tem entalado aí na TV, ou até publicar um novo livro. Sempre foi isso o que te tornou imortal… Que acha?”

“ Vai se foder. Eu não vou para a TV.”

O velho se cansou de falar. Bebemos algumas doses, e ele começou a ficar emotivo. Sentia falta da vitalidade de antigamente. Estava num bar fodido, desejava toda a desordem dos anos 50, mas tudo que via ao redor eram hipsters tirando selfies para postar na internet e pagarem de underground.

Por fim, utilizando o celular, apresentei-lhe os blogs marginais, os contos eróticos escritos por mulheres, e as páginas do facebook, tumblr, e instagram, onde mulheres postavam fotos nuas utilizando o codinome “Musas Bukowskianas”.

O velho pediu para segurar o celular em suas mãos enquanto olhava, deslizou o dedo sob a tela com espanto, passou algumas fotos, e pude ver um riso de satisfação escapando de sua expressão séria enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.

“Talvez a humanidade não esteja totalmente perdida. Ainda resta o espírito”. – disse o velho, envaidecido enquanto tentava manter a seriedade.

Acendeu um cigarro e desapareceu na escuridão da noite.

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