Contos de Quinta – Um bar pra chamar de meu – Greg Kooche

Sempre gostei de sentar numa calçada qualquer pra encher a cara, mas como as coisas começavam a ir realmente bem na minha vida, depois de muito tempo latindo pra economizar cachorro, resolvi que depois de quase três anos morando em Floripa, eu precisava de um bar em que as pessoas pudessem me encontrar sempre. Desde que abdiquei de celulares e tenho como única forma de contato um Facebook quase desativado, a surpresa de todos sempre é a mesma, quando me perguntam como poderiam conseguir falar comigo. Normalmente eu respondo que podem me mandar um sinal de fumaça, mas ter um bar pra bater ponto todos os dias, além dos que trabalho/trabalhei/trabalharei é outro nível. Felizmente moro num dos bairros mais lindos da cidade mais linda do Brasil, e isso torna qualquer boteco em algo gourmet. Só eu sei como sinto saudades do Bar do Tião, no São Conrado, em Campo Grande, até porque eu fui praticamente criado nessa porra. É um desses bares que por precaução se pede sempre um copo limpo, se bem que depois do Tião ter ganho uma boa grana nas noites de sexta e sábado em que uma morte ou outra acabava fazendo parte da noite, mortes essas, felizmente, sempre do lado de fora do bar, ficou um pouco mais elitizado, e dose de conhaque com limão que custava cinquenta centavos, tinha  passado a custar um real. Isso tudo foi antes da máquina de música passar a se chamar jukebox, que também já custou cinquenta centavos cada, e hoje não sai por menos de um real cada música, bem, pensando aqui, não tenho muita certeza se tudo que sai de lá é música, onde eu estava mesmo? É verdade. Os bares na Lagoa da Conceição. Bem, sai das doses de conhaque com limão na adolescência para as cervejas baratas a muito tempo, embora vez ou outra, quando o frio da alma toma conta do corpo, um conhaque vagabundo, comprado no mercadinho perto de casa, salva minha noite, mas aqui na Lagoa da Conceição, não existe cerveja barata. Só no mercadinho. Lá se encontra uma lata de quase meio litro de Bavaria por dois reais ou menos, já nos bares, um chopp velho, custa fácil quinze reais. Eu só ia nesses bares pra tomar chopp em dobro, pois como bom sovina que sou, sei quanto tempo custou cada centavo que ganhei.

Comecei então a rodar os bares perto de casa, sempre de chinelo e bermuda, onde pessoas iam em roupas tão formais que eu tinha um pouco de receio de ser barrado na porta. Então fui num desses bares, e tentei entrar e pegar uma mesa sozinha num canto escuro, afinal de contas, sabe como é, um escritor que se preze, precisa de uma mesa sozinha num canto escuro de um boteco. Para minha surpresa, já na entrada do bar, o segurança me conduziu para um canto, sim, tinha um segurança maior que a porta na entrada/saída do bar, e então pensei que minha excursão pelo mundo dos que não fazem parte da base da pirâmide tivesse chegado ao fim, mas na verdade eu precisava apenas ser cadastrado e pegar uma comanda.

“Nome, por favor.” uma mulher me perguntou e então eu disse.

“Número do celular.”

“Desculpe, eu não tenho.” respondi.

“Pode ser número de outra cidade.” ela insistiu.

“Então, na verdade não possuo nenhum número de celular.”

“Como assim?” indagou incrédula a pobre atendente.

“Eu não quero ninguém me enchendo o saco” respondi sorrindo.

“Nossa, meu sonho. Bem, mas eu preciso de um número qualquer.”

“Ok então” e falei uns números aleatórios.

“Bom proveito.”

Caralho, eu estava acostumado com o Tião mandando eu pegar a cerveja na geladeira, e agora estava num bar em que me desejavam um bom proveito. Olhei a decoração e notei que aquele não seria meu bar. Quer dizer, eu gostava realmente do ambiente, mas ele era caro, eu podia sentir no ar que ventilava através do ar condicionado, que aquela porra seria cara. Achei uma mesa vazia num canto escuro, perfeita para que eu pudesse dizer para minha namorada que estaria no bar trabalhando, editando um livro que eu jogava de um lado pra outro a mais de seis meses, já podia me ver sentado nela procrastinando. Puxei a cadeira e me sentei de costas pra parede, mania dos tempos de Tião, em que uma cadeira ou taco de sinuca podiam aparecer voando a qualquer momento. Então o garçom veio e me perguntou o que eu iria beber.

“Amigo, o que tu tem de cerveja barata ou em dobro ai?” Perguntei.

“Olha, eu tenho aqui um chopp especial, feito na Lagoa mesmo e vendido exclusivamente, posso trazer um?”

“Claro” Respondi, mas por dentro eu pensava que aquilo seria caro. Um chopp artesanal do próprio bairro era algo fino, mas a cachaça com canela que faziam no Tião era proibida, apesar de uma garrafinha custar menos de dois reais.

Peguei o cardápio e comecei a olhar os valores, e vi então a merda que eu havia feito. Porra, dezessete reais um chopp de quinhentos mililitros, desse jeito não dava. Cada duas doses de whiskey no bar, custavam mais caro do que uma garrafa de Jack Daniels que um amigo meu trazia contrabandeado do Uruguai. As comidas pareciam baratas, mas eu era acostumado com bares que vendiam pastéis de vento e espetinhos de salsicha em conserva, com ovo de codorna, nada daqueles nomes frescos, e tudo em inglês, não podia se chamar uma asinha de frango, de asinha de frango, não, eram buffalo wings ou coisa do tipo.

Quando o garçom chegou com meu chopp, fiquei emocionado, afinal de contas, era uma caneca fria, enorme, com aqueles dois dedos de espuma, que eu quando mais novo, sempre pedia sem, por achar que aquela espuma lá, estava me roubando uns dois goles de cerveja, mas com o tempo algum amigo me ensinou que na verdade aquilo servia para segurar temperatura e gás e desde então passei a perder esses dois goles de cerveja. Me senti em um filme.

“Mais alguma coisa?” Perguntou o solicito garçom.

“Não, obrigado, estou só procurando um bar.” Ele me olhou com uma cara de que não havia compreendido e saiu.

Nas tevês gigantes que haviam pelo bar, o esporte era tênis. E me perguntei então, por que diabos alguém iria para um bar assistir aquela merda? E antes de responder minha pergunta mental, olhei pra frente e vi dois sujeitos falando algo sobre uma quebra de serviço lá no jogo. Fiquei pensando o que os trabalhadores haviam feito contra os caras que jogavam, por que se tinha alguém de serviço lá, não eram aqueles com a raquete na mão.

Terminei meu chopp, enquanto o jogo parecia ir pro final, muito emocionante pelo que notei os sujeitos na frente comentando, embora eu não entendesse nada do que se passava, peguei minha comanda, paguei e fui embora. Dezessete reais. Isso dava pra sair bêbado do Tião. Ambos não cobravam os dez por cento, nem esse bar afrescalhado, nem o Tião. Tendo aprendido a lição, rodei os bares, e em todos eu pedia para ver o cardápio antes de aceitar qualquer sugestão do garçom. O preço da cerveja era esse mesmo, entre quinze e trinta reais, e não tinha ninguém tirando a roupa, nem era open bar, muito menos em dobro. Da última vez que eu havia pago tanto por uma cerveja, tinha sido nos meus tempos de solteiro, num puteiro do centro da cidade com meu pai, mas lá no fim das contas a menina nem lembrou de me cobrar, só me explicou onde morava e disse que estava escrevendo um livro também, o que é normal, afinal de contas, todos estão sempre escrevendo um livro, no fundo é mais fácil entender por que alguém quer assistir tênis num bar, do que entender por que alguém quer ser escritor em país que presidente analfabeto é herói.

Rodei toda a Lagoa da Conceição, numa quinta qualquer, e já cabisbaixo fui até o mercadinho em que comprava conhaque vagabundo, peguei meia dúzia de latas de Bavaria, e vim pra casa com uma certeza: se quisessem me encontrar, que fossem até minha casa, que se fodam os bares. Então abri a porta, fiz um carinho na minha vira lata que fazia festa pela minha chegada, coloquei as cervejas na geladeira, exceto uma, peguei o notebook e fui cagar, enquanto escrevia essa história de merda, tomando uma cerveja barata, e pensando nos bons tempos do Tião.

tiao

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