Um dia na barbearia mais cretina do mundo. – Saulo Matos

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Rio de Janeiro, 487º na sombra, 19 de novembro de 2015, 15:00h.

Depois de andar no deserto de concreto durante mais de quatro horas tentando resolver problemas que além de não terem sido resolvidos se transformaram em porcarias ainda maiores, resolvi cortar a merda do cabelo, sei que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas entenda, o sol estava derretendo minha alma e o cabelo acabou se tornando mais um dos meus problemas malditos. Lembrei que não tinha dinheiro – os problemas que tentei resolver e não consegui eram todos de grana (adquiri-la) – e tive que andar até em casa e pegar algum que tinha guardado para aparar a juba.

Cheguei em casa e consegui não morrer pelo caminho, abri a geladeira e me deparei com um jarro de 1 litro de suco de laranja, ele olhou para mim pedindo piedade, mas nunca tive piedade nem de mim, imagine de uma coisa maravilhosa daquela. Bebi tudo de uma vez só, entornou na minha camisa, mas era o melhor suco de laranja do universo, tive vontade de me banhar nele, mas não me banhei. Terminei o jarro quase em prantos, fechei a geladeira e sentei em frente o ventilador, apontei aquele lindo e sorridente ventilador preto para minha cara e fiquei por ali tentando recuperar um pouco de vida.

Levantei, tirei a camisa e coloquei de molho, não antes de jogá-la no chão em um momento de fúria pós conforto por não ter conseguido resolver nada do que tinha saído para resolver. Fui até meu armário e peguei R$27,00. 20 pro corte de cabelo – sim, é caro pra caralho! – e 7 pro maldito cigarro, olhei para a rua e vi o inferno lá fora sem ninguém, até as árvores estavam economizando movimentos e pensei “Meu Deus do céu, que porra de calor é esse!”.

Não me abalei não, vesti outra blusa e saí me sentindo o hellblazer tapeando o diabo, acendi um cigarro, senti meu corpo querendo desistir e voltar, mas forcei a barra e segui em frente, John Constantine não desistiria naquela altura do campeonato, ou desistiria? Era um belo de um filho da puta sacana, então não dava pra ter certeza de nada. Sei que eu não desisti, pensei em cerveja, pensei em suco de laranja e pensei em suco de laranja com cerveja – olha a ideia pros cervejeiros ai – e devido a esse sonho de felicidade permaneci no rumo.

Passei em frente ao meu antigo colégio e dei um alô para o povo que trabalha lá desde que eu nasci, praticamente. Todos ainda lembravam de mim e me tratavam super bem toda vez que me viam, não consigo entender o motivo, pois já fiz muita merda dentro daquelas grades, quando tinha aula eu queria sair para matar aula e nas férias de verão eu invadia e levava uma galera que não estudava lá para tomar banho de piscina, e isso é uma coisa bem tranquila de se fazer, tendo em vista todas as outras que já aprontei, mas que não vale mencionar agora.

Algumas quadras depois cheguei ao meu destino, o barbeiro que corta o meu cabelo desde que me entendo por gente e desde que ele cobrava R$5,00 pelo corte. Abri a porta e entrei e começou a ginga dos barbeiros:

  • E ai tuti! – Meu barbeiro já foi me chamando do apelido do outro barbeiro paraibano que trabalhava com ele.

  • Deus que me perdoe, tá marrado! – Respondi em tom cordial de barbearia.

Dei sorte que neste dia a barbearia estava vazia e me sentei para que o malandro do Gnaldo (meu barbeiro) começasse o trabalho dele e preparei meu espírito para ouvir as histórias mais absurdas e machistas que existem na face da terra.

  • Apara na frente e pica atrás Akila? – Essa já é de lei.

  • O corte de sempre Tuti.

  • Tuti? Você ta maluco Akila? Ai tuti, conta pro Akila daquele cara que veio aqui te perguntando se você raspava cu! – Essa eu ainda não tinha ouvido.

  • Porra Akila, estava eu aqui sozinho enquanto Gnaldo estava ali na área de serviço almoçando e me entra um cara que nunca me viu na vida, conhecido do Gnaldo e perguntou “Cara, você raspa cu?”. Olhei para a cara do indivíduo e chamei Gnaldo, “Ô Gnaldo, chega aqui, tem um cara querendo saber se a gente raspa cu!”

Nesse momento eu já estava tentando rir moderadamente, pois Gnaldo já estava tesourando meu cabelo, não estava afim de sair de lá com uma perfuração na garganta ou com um tremendo buraco no cabelo, mas o cara tinha o talento pra não foder com nosso cabelo, mesmo que a gente esteja se mijando de rir e quase caindo da cadeira. Então Tuti prosseguiu:

  • Gnaldo entrou pela porta de serviço, olhou pro maluco que era conhecido dele e disse bem assim: “Então fulano, você é desses? Pede pra qualquer desconhecido navalhar seu cu?”. Desde então o cara nunca mais voltou aqui, perdemos um cliente.

  • Vocês que colocar pendurado ali próximo de cabelo e barba, raspagem de cu e deem o preço de vocês para navalhar o cu de “macho”. – Prontamente dei a dica para ambos os alucinados expandirem o negócio.

  • Akila, você acha que eu não rasparia um cu? Nem preciso cobrar muito caro não, raspo até o seu se você quiser. O movimento está fraco mesmo, tasco-lhe a navalha no cu de geral! – Sábio Gnaldo!

Enquanto isso meus cabelos negros iam caindo e minha cara ficando maior. Eu odiava cortar cabelo, odeio desde criança. Nos meus primeiros anos de escola eu ficava igual ao seninha, por odiar cortar o cabelo e ter as maiores orelhas de abano do ocidente. Meu cabelo crescia e crescia e quando chegava no nível das orelhas ele começava a curvar para cima de uma forma bizarra, hoje em dia acham fofo, mas na escola não perdoavam. Eu não ligava para nada já naquele tempo, queria é ficar com aquele cabelo ridículo de grande, deixem que os ridicularizadores me ridicularizem.

Sabe-se lá Deus por que comecei a pensar na minha ex enquanto meus cabelos iam dizendo adeus, assim como ela. Nunca fui fácil pra ela, não que eu tivesse sido um péssimo namorado, nunca traí e nem cheguei perto de nada do gênero, mas também não fui dos melhores, bebia demais, fumava demais e priorizava outras coisas além dela, que é a mulher mais linda que eu já vi na vida. Depois de três anos e meio me aturando percebi que as coisas estavam praticamente mortas e resolvi terminar o relacionamento, mas todos sabem que ainda sou completamente apaixonado por aquela mulher. Infelizmente o amor dela por mim foi assassinado por mim, assim como os outros que vieram antes. Enquanto me afundava e me afogava na minha própria penúria fui resgatado por Gnaldo e a história do campeonato de lamber buceta.

  • Akila, ta sabendo que teve a terceira edição do campeonato de lamber buceta lá em visconde? – Por algum motivo muito louco ele achava que eu acompanhava o calendário de campeonatos absurdos da cidade.

  • Fiquei sabendo não cara, você foi de novo? – Esses campeonatos sempre rendem boas histórias.

  • Fui! Mas fiquei só de espectador. Não tinha nem como rapaz, cheguei lá e fui assistir. Sem sacanagem Akila, tinha um coroa lá com a língua do tamanho dessa porra de tesoura aqui, AKILA, DO TAMANHO DESSA TESOURA! E parecia uma britadeira a língua do desgraçado, fez a mulher gozar 5 vezes em 15 minutos. Com uma língua daquela eu não preciso nem de piroca e nem de tesoura. Juro pela saúde do meu filho que está lá em casa, aquele velho era muito sagaz. – Barbeiro é muito melhor e mais sacana que pescador, os tralhas ainda juram essas histórias nas costas de terceiros.

  • Cada um se vira como pode né Gnaldão! A evolução é uma questão de adaptação. Vai ver o coroa não conseguia mais manter a pica em pé e partiu para se profissionalizar na arte de chupar buceta. – Sabedoria das streets, como diria um amigo meu, que de sábio não tem nada.

  • Falou tudo Akila!

Então meu cabelo havia partido assim como tantas outras vezes, tantas pessoas, tantas posses, mas antes que eu me levantasse da cadeira, ouvi a melhor tirada de Gnaldo.

  • Gnaldo, e aquele seu amigo famoso lá que se trancou aqui com você esses dias? – Provocou Tuti!

  • Amigo? Amigo é meu piru que dorme perto do cu e não me come, dorme em cima dos meus ovos e não os quebra e quando tá duro não me pede dinheiro, não fode! – Isso sim era sabedoria das streets genuína.

Com essa me levantei, passei um gel no cabelo, abri a carteira, peguei os vintão e entreguei na mão de Gnaldo, falei que no dia seguinte seria meu aniversário pra ver se rolava algum tipo de desconto, mas nenhum troco voltou. Ambos me abraçaram e desejaram felicitações, abri a porta para enfrentar aquele inferno novamente, mas antes falei:

  • Porra Gnaldo, nem pra dar um desconto pelo aniversário hein cara.

  • Volta aqui que Tuti te dá uma raspada no cu de graça.

Fechei a porta, acendi um cigarro, coloquei os óculos escuros e pensei comigo que cortar o cabelo ali valia cada centavo que aqueles filhos da puta cobravam. E além de tudo ainda me rendeu esse conto!

Saulo Matos

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