Um desabafo

Ele tocava ali, na praça depois da esquina onde morava todo o pessoal do alto escalão da cidade. Já estava se aprontando para ir embora, afinal, já se passara mais de duas semanas, e, assim como todo artista de rua, sabia que devia viver migrando a cada duas semanas, pois é o tempo que a magia dura até que as pessoas se acostumem.
E não há nada pior para um artista do que o comodismo e a não eventualidade.
Mas, um homem que caminhava em direção a um edifício empresarial parou para ouvi-lo, e após alguns minutos, colocou em seu bolso uma nota de 100 reais.
Ele passava ali todos os dias. As vezes deixava algo entre 1 a 5 reais, mas 100, ninguém nunca tinha lhe dado aquele valor.
O músico estranhou a atitude, e após tocar três músicas seguidas, parou, e sorriu gentilmente para o rapaz. Aproveitando a pausa do grande artista, ele, nervoso e confuso quanto a forma de se expressar, disse:
— Ei cara, como pode transmitir tanta calma? Sério, passaria o dia inteiro ouvindo esse som. Ontem, antes de dormir, só conseguia me lembrar desse som, tinha ouvido quando passei aqui, antes de ir para o trabalho. Essa melodia que você tira do violão, como se chama? Nossa, você realmente tem talento cara!
Após a fala do rapaz, o artista que aspirava a calma, gentilmente fez sinal de reverência, e disse que era um tanto satisfatório ouvir aquilo, e que o incentivo que lhe foi dado seria de grande utilidade. Então, fez que ia voltar a tocar. Nesse momento, o rapaz, que estava com bastante roupa num sol de matar, continuou:
— Fico envergonhado de preencher sozinho uma plateia sua. Deveria estar aqui, do meu lado, o mundo inteiro prestigiando esse talento. Sabe, quando eu estava vindo, estava pensando, “que diabo, agora vou sentar, verificar a bolsa de valores, analisar as quedas geradas pela crise, depois vou abrir os jornais online, e as redes sociais, e terão mais e mais críticas e protestos que não saem do computador, verei discursos de ódio…” e antes de terminar o pensamento, já dizia a mim mesmo que seria melhor se eu não fosse e largasse tudo. Mas acabei vindo, para mais um dia terrível. Quer dizer, um dia que seria terrível, mas você me salvou! Ainda bem que te encontrei aqui, obrigado! Obrigado!
O músico se sentiu envergonhado, não sabia o que dizer, mas apertou a sua mão e disse:
— Pô, é por isso que nós compomos e vivemos, para que possamos trocar energia. Trocar experiências e transcender sentimentos. Olha essa música, eu compus pensando nisso.
Mas antes que começasse, o rapaz continuou:
— Já cansei de todos esses problemas, sabe? O mundo é um grande absurdo. Estou cansado de buscar os antecedentes, motivos e consequências para tentar explicar as mentes pequenas. Estou cansado de combater isso sem saber por onde. Isso é chato, me deixa perdido, e estou cansado de me sentir perdido também. Não quero mais ler sobre racismo, homofobia, machismo ou qualquer forma de preconceito. E não! Não é que eu não me importe, ou que esteja acomodado. Se por um acaso presenciar algum ato como esses na rua, irei reprimi-los sem pestanejar, mas eu quero a vida. Quero as histórias cotidianas, quero dedicar meu tempo às grandes histórias, aos grandes filmes, aos grandes debates, as grandes canções, como as suas. A vida é muito curta para se ocupar com a pobreza de espirito dos outros. A partir de hoje, viverei apenas o que me for do âmago, e nada mais.
O músico, percebendo que já carregava o violão a certo tempo e ainda não começara canção alguma, respondeu, secamente:
— É verdade. Maus tempos esses que vivemos.
Guardou seu violão na capa que carregava, juntou suas coisas e partiu. Até gostara do discurso do rapaz, mas cresceu uma tristeza em seu peito quando percebeu que não era a sua música que o encantara. O rapaz queria apenas um bom ouvido para escutar o seu desabafo, e nada melhor do que um artista para isso, afinal, parecem sempre tão solitários, não é mesmo?
O músico relembrou o motivo de sempre mudar de lugar: o segredo era nunca criar laços de intimidade. Criara uma casca de resistência ao mundo, e não queria perde-la. Entendeu porque os grandes artistas enlouquecem com a fama: eles perdem a solidão.
A partir de então, passou a mudar o lugar do seu show a cada vez que se passava uma semana e meia, para que não criasse intimidade com lugares, paisagens, pessoas. Não queria correntes. Não queria que lhe roubassem a solidão, a calma, pois depois, sabia que a próxima a ser tomada seria a liberdade de ser ele mesmo.

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