Eu vou foder com a sua vida

Ela era uma moça misteriosa. Seu sadismo, por vezes se manifestava através do seu olhar maníaco, que só era exposto em determinadas situações.

Seu primeiro namorado lhe proibira de usar as roupas que lhe agradavam usar muito cedo. Ela era jovem, e ele, cinco anos mais velho, a reprimira com seu preciosismo egoístico. E quando ela descobriu que ele o traia, já era tarde demais. Tinha se privado de boa parte da sua vida, e restou apenas o ódio em relação a ele por conta do que poderia ter vivido e lhe foi brutalmente roubado.

A moça, cujo nome não gostava de revelar, passou então a descontar as dores da sua desilusão em outros homens, num ato de misandria pós-traumática.

Certa vez, após um show da banda Vespas Mandarinas, levou um homem para sua casa. Ainda morava com seus pais, mas estava sozinha naquele fim de semana. Enquanto transavam, ela sorria. Era um riso tenebroso. O rapaz achara excitante de início, mas após alguns instantes, quando notou que ela mantinha seu riso, ele sentiu um terror em seu olhar, e um ar de pânico se manifestou. Sentiu medo, mas fingiu não se importar, a loucura se assemelha a adrenalina, e adrenalina lhe dava tesão.

— Eu vou foder com sua vida – ela gritou. Ele sorriu e apenas continuou o ato. Depois, cumprimentou-a e desajeitadamente foi embora, ainda um pouco assustado.

Ele era casado, e se chamava Hubert. Ela havia pesquisado toda sua trajetória antes de encontrá-lo, no Facebook. Tinha aberto a página do evento da banda e observado quem confirmou presença, até escolhê-lo. Não era muito criteriosa, apenas observava o perfil, e caso encontrasse alguma forma de preconceito, ou que qualquer coisa que lhe parecesse preconceito, optava por ele.

Sua esposa, assim como ele, era dona da empresa que trabalhava, sendo eles portanto, sócios.

Na semana seguinte, num possível dia comum para Hubert, sua esposa dirigiu até o trabalho em silêncio. Chegando lá, convocou todos para uma reunião. Ele não entendia o seu comportamento até o momento em que ela se manifestou.

Havia recebido um envelope com fotos dele transando com a moça. Friamente, mostrou a todos e o ridicularizou em público. A moça colocara em si uma tarja preta no rosto, editada no Paint, numa edição bizarra.

Sua esposa pediu o divórcio do casamento e o demitiu por justa causa.

“Vou foder com a sua vida”, ele lembrou. Foi a casa da moça xingá-la, mas ela simplesmente atirou um castiçal em sua cabeça e fugiu. Tinha aprendido que não poderia mais levá-los para sua casa. Era perigoso.

Quando Hubert acordou, não lembrava de muita coisa. Ela não estava mais lá, e ele apenas chorou.

Na segunda vez que isso ocorreu, aconteceu na saída de um teatro. Um rapaz bem arrumado caminhava, e ela se esbarrou nele, enquanto carregava duas sacolas com algumas compras, derrubando tudo que carregava. Ele a ajudou, e ela conseguiu demonstrar seu interesse sexual afirmando o quanto ele era gentil enquanto abria o decote.

Ele parecia estressado e ansioso, mas, ao notar o interesse dela, a convidou para ir com ele até a sua casa para bater um papo.

Estava tudo programado, da mesma maneira anterior. Ela já sabia onde era a sua casa, tinha descoberto após visualizar o seu perfil e suas diversas fotos que ditavam o seu endereço e a sua rotina. Sabia também que ele estava prestes a se formar no curso de direito e queria passar no exame da ordem dos advogados que aconteceria no dia seguinte. Portanto, aceitou e apenas o seguiu.

Chegando lá, não houve muito papo, foi só abrir a porta, duas taças de vinho, e ela já estava por cima dele. Disse:

— Eu vou foder com a sua vida!

Era incrível a maneira a qual ninguém nunca levava aquilo a sério se fosse dito durante uma transa. Ela então terminou, bebeu mais uma dose de vinho, pôs um comprimido, e lhe ofereceu outra. Depois, sem muito papo, partiu. Deixando-o plenamente satisfeito com o seu silêncio. Ela tinha aparecido para lhe tirar o stress e dizer que a vida é bela. Ao menos foi nisso que ele acreditou. “Obrigado Deus! ”, gritou, em tom alegre.

Alguns segundos depois, desabou no chão, apagado. Ela ficou em sua porta e tratou de se certificar que ele não sairia até o horário da prova, as oito da manhã do dia seguinte, para que a sua promessa fosse cumprida. Ela iria foder com ele, e não no bom sentido.

O rapaz não fez a prova do exame da ordem, e teve de esperar um ano até poder tentar dar um rumo a sua vida.

Aquilo se tornou uma prática comum a ela, que demonstrava cada vez mais prazer ao fazê-lo. Conhecia homens sedentos por mulheres, os levava para o motel, e os destruía socialmente de alguma maneira, após estudá-los e dizer-lhes que lhes foderia a vida. Era importante dizer antes de tudo.

Um dia ela arriscou praticar tal ato com um homem desconhecido que lhe xavecara durante uma semana inteira, enquanto caminhava pela praça onde os motéis que costumava ir se encontravam.

Sentia ódio desse tipo de homem mais que os outros. Por isso, após perder a paciência com o sujeito, seguiu o seu instinto. Num surto de raiva, o levou para um beco, levantou sua saia, e esperou a penetração para dizer, com todo prazer “eu vou foder com a sua vida!”. Mas ele respondeu “eu é quem vou foder com a sua”, mostrando seu distintivo de policial.

Ela tremeu, lembrou de tudo que vivera, de todo seu prazer sádico, e pensou que o fim estava ali. Olhou para ele, e de alguma maneira sabia que o policial a tinha descoberto. Estava tudo acabado. Tão cedo e já iria pagar pelos crimes. Uma vida desperdiçada. Era o que passava em sua cabeça.

Então, olhou nos olhos do policial, virou de costas, e disse “então fode gostoso!”.

Foi o que o policial fez.

Matheus Peleteiro

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