A redenção de Neto Cobra – Vítor Oliva

A vivenda de Neto Cobra era não mais que incomum, mas deveras aconchegante. Logo na entrada havia uma escultura do pensador, feita de metal por um amigo de longa data. O homem considerava um retrato metálico de si próprio, visto que, solitário, jogado aos leões dos bares, passava os dias refletindo sobre que acontecimento de fato ocorrera para que ele se encontrasse naquela situação.

Neto Cobra era um homem carrancudo, circunspecto, balbuciava pelos cantos com uma aparente vertiginosidade, não do corpo, mas da mente – da pobre alma daquele ser. Sua rotina era intensa: acordava às 5 da manhã, tomava um trago de cachaça e ia para o canavial. Trabalhava para um senhor dono de uma fazenda que ficava próximo à cidade e, no sol intenso do sertão, era o momento que suas vertigens passavam a se tornar também corporais. No auge da tontura e do receio em perecer ali mesmo dentre as canas, pegava sua bicicleta e ia para casa, após horas de árdua labuta. O almoço também era rotineiro: uma colher de arroz, duas de feijão e um ovo frito. Logo após, fazia sua sesta fumando um cigarro e lendo o jornal, que odiava, mas lia com fulgor. Não possuía mulher e não tinha filhos. Sua desgraça – como o próprio homem dizia – era um fruto que apodreceria sem deixar herdeiros a comer.

Certo dia, após cumprir sua rotina pela manhã, Neto Cobra chegou em casa, almoçou, sesteou e se pôs a pensar. Estava tonto, e passou a ter divagações desconexas. “Que mal cabo houve de entrar em meu ânus para que eu fosse eletrocutado de maus pensamentos assim?”, pensava. “Tudo é podre, tudo é funesto. A vida é muito triste. Cabeças de bagres que rastejam pelas vielas das cidades procurando uma fuga para ter o que comer. Não mais comerei. Não trabalharei mais”. Não obstante ser um devaneio, estava decidido. A partir daquele dia não sofreria mais com a labuta, nem correria atrás de alimento que, para ele, só servia para energizar o corpo para novo trabalho árduo. “É uma armadilha. Não cairei nela, senhores. Os senhores hão de reconhecer seus ossos no abismo sozinhos, sem mim, eu hei de me elevar”.

Foi à cozinha, pegou a caixa de fósforos e acendeu mais um cigarro. Um desmoronamento de pensamentos inundava a mente do pobre ser, e o homem passou a se portar mais agressivo. Foi ao armário, a garrafa estava vazia. “Preciso de mais”, pensava. Saiu porta afora em direção ao bar.

No caminho, as pessoas iam cumprimentando Neto Cobra com certa avidez. Era respeitado em toda a pequena cidade. Considerado como homem justo, trabalhador, centrado. Ele fora ignorando os cumprimentos até a porta do bar, onde entrou.

  • Seu Té, me veja uma daquela – solicitou o Cobra.

  • Vai começar os trabalhos cedo essa semana, Cobra? Hoje é terça.

  • Estou de folga. Pode ficar com o troco.

  • Obrigado.

Voltou para casa. As mesmas pessoas, paradas às portas, cumprimentaram-no pela segunda vez. Para algumas delas, levantava a garrafa num tom de resposta. Chegou em casa e trancou a porta.

A casa passou a se parecer como um báratro e um oráculo ao mesmo tempo. O homem bebericava da garrafa e conversava com as paredes, exprimindo seus pensamentos. “Essas filhas da puta, só ouvem e nada dizem. Para que foram feitas? O homem tem de aprender com as paredes da própria casa”.

Já se encontrava embriagado, e reflexões mais sombrias começaram a lhe tomar o íntimo. Lembrou de sua mãe, morta a facadas dentro daquela mesma casa, quando tinha apenas 8 anos. Pagara o preço das desavenças do pai, que era alcoólatra, e vivia arrumando confusões nos bares. Desde então, jurou nunca beber – o que, obviamente, tomado o rumo dos fatos, não acontecera.

Olhou para baixo e notou a garrafa em uma das mãos. Mais à frente, encostado na parede, estava o facão que utilizava todos os dias para trabalhar. Dois símbolos dos maiores traumas de sua vida lhe eram rotina, e o homem nunca havia pensado nisto, até então. “Sou um tolo. Um miserável. Em que me tornei? Uma mera máquina de alimentação deste vil Estado opressor”. Ao lado do facão, se encontrava uma corda, em cima de um banco. Logo acima, havia um espelho, onde o homem se mirava. Neto Cobra pegou o facão e atirou-o com vigor no espelho. Os estilhaços tomaram a sala. Após, foi de encontro ao banco e à corda e os tomou em mãos. Caminhou em direção ao quintal, onde havia uma mangueira que estava ali há décadas. Subiu no banco e amarrou a corda num grosso galho. Fez um nó de forca e deixou a corda pendurada ali. Voltou à sala, acendeu um cigarro e pegou o facão. Em menos de três tragos, jogou o cigarro fora e voltou de encontro à árvore, com o facão e a garrafa em mãos. Estava histérico. Subiu no banco. Minuciosamente, passou a cabeça pelo nó e o assegurou que não se desfizesse. Passou um tempo a olhar para o céu, jurando se encontrar com Deus para acertas as contas. Bebeu o restante da garrafa. Em meio aos pensamentos ainda não concluídos, Neto Cobra, no auge de sua embriaguez, se desequilibrou. Antes que o banco pudesse cair, para que se certificasse da intenção que tivera, atravessou o facão em seu estômago. O banco caíra, o galho se retorcera. Foi o fim.

A cidade inteira se comoveu, e passaram a se perguntar o que levara Neto Cobra a fazer aquilo. Fizeram missas, grupos de orações em sua casa para que sua alma fosse em paz. Mas ninguém sabia realmente da jornada de sofrimento de Neto Cobra. Somente ele, a garrafa, o espelho, o facão, a corda e a mangueira.

 

AAAAA O pensador

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s