O bastante

O pior meio de se educar um filho, é tentando ensinar a ele disciplina sob coerção física. Foi essa a minha primeira lição. Um sujeito que cresce tendo como seu preceito primário a disciplina, se desenvolve com um padrão absoluto do que é certo, e do que não é, e por isso termina se tornando um ser sem dúvidas, fechado, ignorante e limitado. Um ser que enxerga apenas um lado, o lado politicamente correto das verdades inquestionáveis. Essas pessoas, as disciplinadas demais, elas nunca enlouquecem. Elas nunca jogam tudo para cima, e sobretudo, nunca se deixam buscar o que as faz satisfeitas. Alegam precisar manter sempre o foco.

Eu nunca quis viver essa esquisita e disciplinada normalidade. Minha mãe sempre me disse que a disciplina é importante para tudo, mas para tudo que se possa considerar um assunto sério. A questão é que eu nunca fui de considerar muitas coisas como sérias. O conselho foi apenas um conselho, e não uma ordem incisiva. Hoje eu agradeço a minha mãe por isso.

Acho importante a existência da disciplina, ela pode cumprir bem o papel de impor limites. Só não concordo com aqueles que fazem dela um mantra. Essa coisa de ordem e disciplina o tempo todo nos priva das coisas sensoriais. Para quê tanta seriedade se a vida é uma só? Por que devemos fazer tudo seguindo sempre uma mesma sequência predefinida de atos e regras?

Nunca vou ser um cara totalmente preocupado com a disciplina. Eu não consigo fazer tudo sempre igual, a não ser que eu tente. Só que eu nunca tento. Sempre invento uma coisa diferente.[1]

Sei da sua importância, mas, ao mesmo tempo em que não sou muito adepto à disciplina, sou fã da honra e da fidelidade. Acho que um ser humano que não carrega esses dois atributos é um ser incompleto. Fidelidade é uma questão de respeito, e para você respeitar a si mesmo, você precisa ter honra, e se você não respeita o outro, você não pode ter honra, e se você não tem honra, você não pode respeitar a si mesmo. Bem, não preciso prosseguir perante afirmativa tão óbvia.

Mas comigo nada nunca foi assim, tão simples. Só estes atributos nunca me foram suficientes. Na verdade, sempre foi tudo muito complicado. Enquanto crescia, podia viver com isso, mas aí cheguei aos vinte e cinco, e trabalhar é difícil, sabe? Não o ato de trabalhar, mas o ato de se encontrar em algo. O ato de exercer responsabilidades. Acontece tudo de maneira precoce. Embora acreditasse que tudo aconteceria no tempo certo, eu saí do colégio, onde ainda recebia “atividades de casa” que exerciam um controle sobre o meu desempenho, e depois, de repente, estava na faculdade, onde vi as coisas se desenvolverem rapidamente, e a realidade bater na janela. Foi nesse súbito momentâneo que tudo mudou.

A partir dali eu precisava apenas tentar adquirir respeito para que não virasse um subordinado fracassado. Deveria conseguir passar segurança para adquirir confiança. É tudo um contrato, e o ônus disso tudo é conquistar o seu espaço.

Hoje digo que acho que eu só resisti por causa do meu pai. Ele me dava surras quando era mais jovem, enquanto dizia que precisava ter disciplina, ser forte. Eu gritava, dizendo que doía, mas ele dizia que doía mais nele que em mim, porém, só dessa maneira eu aprenderia.

Ele nunca me deu apoio de fato, somente me forçou a ter coragem perdendo o medo da morte, já que, tantas vezes me deixou bem próximo dela.

Odiei ele por muitos anos, mas devo admitir que foi ele quem me ensinou a ser duro e implacável.

Vinte anos depois, encontrei ele numa lanchonete no centro da cidade.

Ele me disse que sabia que não estaria sempre presente e teve de me fazer forte. Eu não concordei, mas entendia a sua boa intenção. Ele era um filho da puta, e eu sabia disso.

Nos abraçamos, e soube que alguns dias depois ele partiu. Acho que ele estava esperando aquele encontro para partir. Sentiu que sua missão tinha sido cumprida e se foi. Ele me amava, o meu pai.

Eu não lamentei. Tinha me tornado duro o suficiente para não perdoá-lo, e isso era o bastante.

[1] Referência a música “Masturbação mental” do rapper Gabriel, O Pensador.

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