As mortes do clichê

cliche

Cheguei da redação mais tarde do que de costume. Abri a porta mecanicamente, minha cabeça nem estava mais ali, viajava, alhures. Os olhos, vidrados, inchados de cansaço e já prevendo que só se fechariam depois de muitos copos de cerveja, engolida a sorvos, como que para amortecer uma dor que insistia em me perseguir. Fui tirando as roupas deixando um curioso rastro pelas costas, um rastro reptiliano, primeiro os coturnos, depois as meias – encharcadas – a jeans, a camiseta, até que meu corpo branco resplandecesse pela cozinha, a cueca zorba, surrada, como um souvenir do dia que estava passando, o resto da minha civilidade. Naquele momento aquela cueca era o que me restava do indivíduo tal qual era conhecido na vida lá fora, fora dessa cozinha, dessa casa. Dilatei as narinas e constatei que as sobras do almoço ainda estavam boas, apesar de as tampas não terem protegido o feijão, o arroz e o ovo todos remexidos dentro da panela e muito provavelmente moscas varejeiras haviam depositados suas larvas lá dentro, em algum lugar, onde o feijão o arroz e o ovo se encontravam, se misturavam, e me serviriam de última refeição, não da vida, do dia, que estava morrendo. Os carros lá foram começavam a rarear, o vozerio da feira também. Em instantes latidos esparsos e distantes se fariam ouvir, como num sonho, ou num filme de pedro almodóvar.

Comi.

Sentei para escrever. Era para ser o romance dos romances. O romance ideal, um catatau bem produzido com ótimas construções frasais, referências extra-citacionais, sonoridade, um romance que seria idolatrado pela crítica, pelos literatos, faria encher de inveja os olhos dos outros escritores e seria amado por leitores de todo o mundo. Meu herói seria um herói de traços fortes, nariz adunco, queixo pronunciado, peito musculoso, que salvaria a mocinha, uma mocinha loira, de olho azul, de aparência ingênua, seios fartos, compleição delicada. Seria um baita romance. Quem sabe me valeria uma entrevista no jô soares, um roteiro para o cinema. Seria usado nos cursos de letras como um belo exemplo de literatura contemporânea. Um sucesso, um sucesso.

Seria.

Matei-os todos. Os heróis e as mocinhas e todas as aventuras que eles viveriam. Matei meu romance dos romances. Meu romance clichê. Todos mortos dentro da lata do lixo.

Amassadas as folhas de papel pareciam delicados botões de rosas desbotadas. Gostava delas mais assim. Eu era um assassino de clichês. Os clichês vinham pela cabeça e se materializavam na folha mas de pronto os descartava.

Só conseguia escrever com alguma decência quando escrevia das putas e dos bêbados e das calçadas banhadas de vômitos dos boêmios. Gente que conhecia nas minhas incursões pela zona de baixo meretrício da cidade. Anti-heróis por natureza. Textos redundantes, sem sentido algum, por vezes com personagens mortos que voltavam a vida ao sabor do meu poder de escritor. Um caos.

Sorvi vários goles de cerveja e dormi em paz. Sabia que no outro dia, quando chegasse da redação, cansado, maltratado, quando deixasse a mesma trilha reptiliana pelas costas, qual um lagarto, e ficasse de cuecas cheirando a comida e me decidindo se ela ainda poderia ser aproveitada, e quando me sentasse para escrever, no quarto abafado, com as bagas de suor pingando da testa, que era o meu o meu jeito preferido de escrever, os clichês voltariam, todos eles voltariam. E o meu desejo de ser um escritor de holofotes, um clichê ambulante, também. Mataria todos, sem nenhuma piedade, com a força do anonimato dos meus anti-heróis que nunca seriam lidos.

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