Contos de quinta: Hay que tomar cuidado com el serenazgo

“Hay que tomar cuidado com el Serenazgo”

Miraflores é um bairro de Lima, no Peru, que transpira inspiração. Um nobel da literatura vivia andando por lá, o lugar é limpo, organizado e cheio de câmeras por todos os lados. Perto de um mercado, chamado Vivanda, você ira encontrar um hostel, chamado “Casa del Mochilero”, que abriga gente do mundo todo, por um preço muito menor que o da região. Quando eu fiquei uma semana lá, a maior parte da galera era da Europa, mas tinha bastante latino, assim como eu.

Uma noite, depois de passar nesse mercado e pegar algumas cervejas, estava no quarto, de bobeira, quase dormindo, quando um contorcionista de rua, peruano, me chamou pra fumar um pouco de “marijuana”, e como eu nunca gostei de fazer qualquer tipo de correria pra comprar droga, já estava a uns quarenta dias viajando, sem fumar um pouco de maconha, por medo de me envolver em qualquer tipo de enrascada fora de meu país, afinal de contas, a fama da policia sul-americana não é nem um pouco boa. Ele me disse:

  • “Ei brasileño, vámonos fumar um poco de marijuana?”

  • “Si, claro mi hermano.”

  • “Solo hay que tomar cuidado com el serenazgo.”

Ao ouvir aquilo, peguei um casaco leve, embora não fizesse muito frio. Como ele era local, achei melhor escutar sua previsão do tempo. Lima tem o clima perfeito. O inverno não passa dos quinze graus, e no verão, nada muito além de trinta, sem contar que não chove. Nada mais que 20 mm de chuva por ano, que segundo os guias que me informaram, esses 20 mm nada mais eram, do que brisa de fortes chuvas na região da serra, um pouco distante de lá. E assim nos “quedamos por las calles” até um “ovalado”, que seria uma espécie de rotatória, mas com um busto de alguém importante, alguns bancos e grama. Um local que parecia ser feito para maconheiros. Éramos um grupo bem diversificado. Tínhamos uma irlandesa, um yankee, um argentino, um colombiano e eu, um brasileiro. Todos eles eram quase que viajantes profissionais, que se sustentavam na estrada fazendo pequenos trabalhos, malabarismos, tocando, cantando e até mesmo simplesmente pedindo e eu, apenas uma aventureiro, em minha primeira viagem um pouco mais longa.

  • Se algum de vocês quiser, consigo maconha para comprar. – Disse o contorcionista peruano.

  • Quanto custa a grama? – Perguntei.

  • Dez soles. – Ele respondeu.

Então todos ficaram animados com o valor, principalmente o americano.

  • Porra, pago três soles na grama em minha cidade no Brasil, e isso é bastante caro, na cidade em que fui criado o preço é de um pra um. – Disse.

Todos então ficaram mais animados ainda, querendo conhecer as belezas nem tão naturais assim de nosso país.

  • Mas a droga deve ser uma porcaria então? – Perguntou o americano.

  • Muito pelo contrário, ela deixa realmente chapado. – Defendi.

  • Essa a maconha deve ser indica, e não sativa, essa aqui é sativa, vai te deixar alegre, pra cima, animado, e não com vontade apenas de comer e dormir. – Protestou o peruano.

O colombiano ia ralando a maconha, enquanto o argentino tinha a seda já em mãos, enquanto um cão da rua tentava transar com a perna da irlandesa. Então acabou-se o processo artesanal, e tacamos fogo em um baseado multiétnico. Enquanto eu começava a viajar, não pude deixar de pensar que isso deveria ser a reunião dos sonhos de grandes lideres da américa latina e de todo o resto do mundo, jogados no chão de um “ovalado” qualquer. O americano passava o baseado para o lado e dizia:

  • Caras, como eu adoro a América do Sul. Porra, trabalho cinco meses do ano nos EUA como barmen e passo os outros sete meses viajando por aqui.

Nesse momento percebi que nasci no país errado. Quando me aventurei a ser barmen no Brasil, mal conseguia pagar meu aluguel em dia.

  • Eu consegui juntar uma grana quando dava aulas de teatro para crianças na Suiça. – Disse o colombiano. Conheci vários colombianos até hoje, e porra, todos são gente boa. Ainda preciso conhecer esse país que me parece ser tão lindo.

Cada um contou um pouco de sua história enquanto passava o baseado. Desde a menina rica que viajava o mundo para se encontrar, até seu namoradinho argentino que viajava a América do Sul com sua irmã tocando nos ônibus para poder pagar o hostel e conseguir comer, num dia de sorte. Vi uma luz passando lentamente em nosso lado, e não pude deixar de ver que era uma viatura com sirenes ligadas, e na porta escrito em letras grandes “SERENAZGO”. Pensei: Porra, e eu pegando um casaco achando que essa merda de serenazgo fosse apenas o sereno da noite. Merda, era a droga da policia local. Dei mais uma tragada no baseado, me despedi do grupo, enquanto podia notar que eles faziam a volta no quarteirão um pouco mais a frente. Então apressei um pouco o passo, e entrei em um mercadinho. Quando você viaja um pouco mais de tempo, qualquer mercadinho encanta. Cada pais tem suas peculiaridades, na verdade cada cidade tem suas peculiaridades. Bati nos meus bolsos, e vi que estava sem carteira e documentos. Pensei: Se eu tomasse um enquadro agora da policia, com essa minha cara de gringo, eles iriam arrancar uma grana fácil de mim, sem documentos. Contei as moedas no bolso, peguei duas cervejas e um pedaço de bolo de chocolate, embalado a vácuo e que custava apenas um sole. Segui caminhando até o hostel, entrei no quarto em que estavam quatro francesas, e minha namorada. Dei um beijo nela, que cansada parecia já dormir pesadamente. Ela acordou.

  • Já voltou? – Ela perguntou com sua voz de sono que eu tanto adorava.

  • Sim, achei melhor tomar cuidado com o “serenazgo”.

  • Mas nem tá frio. – Ela disse.

Dei mais um beijo em seu pescoço e disse:

  • Trouxe bolo de chocolate.

  • Obrigado, amanha eu como.

Terminei de tomar a cerveja a seu lado enquanto ela voltava a dormir. Olhei no breu do quarto, e estávamos sozinhos. Deitei ao lado dela, tirei minha camisa e fiquei pensando que deveria ter comprado um pedaço de bolo para mim também.

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