Sem olhar pra trás

Martin estava com o seu traseiro acomodado no banco da frente, dirigindo ao lado do seu parceiro Ted quando avistou dois mendigos parados na sinaleira, esperando o momento oportuno para atravessar a rua. Pareciam cansados. O mais velho entre eles parecia beirar os trinta, usava apenas uma bermuda bege surrada; o rapaz ao seu lado deveria estar sobrevivendo há cerca de quinze anos, provavelmente era seu filho.

Martin sinalizou, gesticulou um legal e os deixou passar. Alguns minutos depois, Martin se virou, e disse ao seu amigo:

— Cara, eu senti piedade daqueles dois.

— Eu também sinto às vezes – respondeu Ted.

— Você ouviu o que eu disse? Acho que você não escutou. Eu falei piedade! P-I-E-D-A-D-E!

— Sim, ouvi. E daí?

— E daí que, porra, piedade! Por que eu sinto piedade? Digo, o que eles têm pior que eu?

— Devo mesmo responder, Martin? Você tá me zoando, né?

— Zoando? Você realmente acredita que na cabeça deles existem mais problemas que na minha? O que eles devem pensar? Na pior das hipóteses, será algo do tipo “ah, como eu quero sobreviver”. Esse é um esforço físico apenas, embora acompanhado de dor. Não há exaustão mental em seu lamento. Eu falo sobre um lamento maior. O lamento causado pela existência da consciência e da lucidez. O que pode ser pior que temer chegar em casa para encontrar a sua mulher balofa, pronta para reclamar do que quer que seja? O que pode ser pior que ter que buscar um novo emprego enquanto você não consegue suportar nenhum? Odeio saber que toda quarta, quinta e sexta terei a mesma rotina de merda, e não ter perspectivas de um futuro diferente até que a tal da morte chegue. Merda, o meu tempo só se esgota enquanto eu morro aos poucos ainda estando vivo. Sabe o que é? Eles deviam sentir piedade de mim também, isso sim. Diabos, penso em me matar todo dia, meu cansaço intelectual é intenso, por que eles não sentem piedade de mim? Minha vida está tão perdida quanto a deles, ou até pior. Eles deviam ter… Você entende, não entende, Ted?

Ted sentiu repugnância, mas não havia piedade em seu pesar. Pediu para parar no acostamento, abriu a porta e partiu, sem olhar pra trás.

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