O pastor de ninguém – Saulo Matos

OBS: Leiam ouvindo a musica que ouvi quando escrevi (se quiserem).

a janela me olhou
e não gostou do que viu,
então arreganhei logo
suas fechaduras
e olhei para o mundo
e também não gostei do
que vi,
mas juro que queria
gostar,
as vezes.

me senti uma folha de papel
em branco
queimando apressada
através do tempo,
desperdiçando meu
possível potencial,
minha possível genialidade,
meus possíveis dons,
deixando tudo queimar
até que algumas gotas
apagaram meu aflito
ígneo e me deixaram
com um centro ensopado
e bordas chamuscadas.

naquele momento percebi que
estava perdido ou livre,
nem deuses, nem demônios
almejariam uma alma com
extremidades em cinzas
e um centro afogado
e lacerado,
eu era belo em minha própria
penúria,
era algo entre a melancolia
e a fúria,
era o não escolhido,
o esquecido,
eu era o pastor
do desolamento da
alma,
sozinho
e único,
finalmente.

amarrei minha mente em meu corpo
antes que ela fugisse e peregrinamos por ai
em meio aos escolhidos, em meio aos favoritos.

tive uma fazenda
e plantei todas as minhas
ideais e ideais
em vastos campos verdes
feito milharais,
algumas brilhantes e belas,
outras inúteis e fétidas,
mas minhas intenções não
importavam,
e logo antes de darem
frutos,
ateei fogo em tudo.
foi um cena esplendorosa
de labaredas azuis, vermelhas,
verdes e até negras,
seriam aquelas as cores
dos meus sonhos?
não importava mais
pois no fim das contas
tudo seria cinza.
segui em frente
me despedindo
da fumaça
que deixei pra trás.

fiz uma coleção bem pequena
de amores
e cuidei dela como uma
mãe cuida do seu recém nascido,
mas o que eu queria que fosse eterno
acabava virando uma peça na coleção
de lembranças maravilhosas e desastrosas
e por tal motivo, antes que eu adicionasse mais
um para a minha coleção, destruí os poucos
amores que ainda tinha.
eu havia nascido para amar,
e talvez para morrer sozinho.

dei mais alguns nós na amarradura
de minha mente
e tive que grampear também meu coração
para que o maldito não se fosse com meus
amores recém destruídos.

segui peregrinando,
finalmente eu estava livre,
eu estava perdido,
eu estava sozinho,
um pastor de ninguém
que na sua interminável jornada,
queria que tivessem deixado
o papel
ter queimado por
inteiro.

mas não deixaram,
não deixaram,
o deixaram
me deixaram.

Saulo Matos

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