andei com bolhas nos pés

1apsgritandoEstes espaços fechados. Quarto, casa, carro, roupa, cadeira e frestas de persiana. Preciso sair para ver a rua. As ruas, as que encontrar, claro. Andei feito um condenado, condenando a mim mesmo. Sim, condenei a mim mesmo. Assumo daqui em diante essa responsabilidade de errante. Não culpo as bolhas nos calcanhares que flagelaram o meu trajeto. Nada demais para os que não têm sequer uma chinela quebrada. Fiz o serpentário retilíneo por ruas e casas pouco criativas. Lugares que não tive vontade de entrar. Mas passava e de longe bisbilhotava, em especial os breves jardins, não escondendo o  ansioso medo de perder alguma coisa. Foi um voo quente que passou por mim. Cheiro em cheio que depenou de arrepios todos os pelos do meu magro braço. Esta viela, que serpenteia de fato, ainda que só ilusão, tem um ar de oásis. Tenho medo agora de entrar. É claro que paro e em mim paira uma boa vontade, mas é preciso ter em mente que ainda não estou pronto. Não é só chegar e descolar um estilo marrento, pinta de quem sabe o que faz, que me dá condição de entrar com meus pés empoeirados em um lugar desses, esquecido é verdade, mas repleto de vozes atuantes. São muitos os passos que terei de dar para saber como conversar, e não convencer. Não é somente o ouvido a ouvir atento, é todo um corpo de cena. A cena é simples e eu venho com muita teoria. Sou, suponho, um cara legal e tenho boas intenções a priori. E mesmo assim, ainda que confundido com um vendedor de maconha escorado no poste da esquina agarrado a uma long neck, isso não tira do meu rosto a satisfação enfadonha de ser um bem nascido. Resta a fresta de saber como inventar essa relação. Muitos me pedem. A poucos posso dar. Não sei bem o que dar, talvez doar a minha atenção saltitante de estudante universitário boçal. Não há negação alguma em afirmar que existe um vazio que não acalma a minha vida. Melhor do que dizer “minha alma”. Muito menos a deles, que moram a poucos metros de camadas escatológicas de lixo e mais lixo e que mesmo assim são marcados por uma fuga intensa de sorrisos e esperanças. Eles dançam muito mais do que eu, seu rebolado tem muito mais quadril do que o meu. A minha responsabilidade é a de ouvir estes corpos. Falar é fácil neste mundo de sapatos novos. Não aguento uns poucos calos. Meu corpo é frágil de doenças da morte urbana. Remédio não é na farmácia. Que se danem as farmácias vizinhas. O remédio está naquelas casas assentadas em ruas que os carros não passam. Ruas (des)asfaltadas. Casas apontadas diretamente umas às outras. São alvos de dignidade que os muros não podem alcançar. Porta com porta, que se abrem como lábios secos de satisfação. Entes queridos. Só podem morar ali os que se conhecem uns aos outros. Sim, eles precisam dessa fofoca e desse duelo de vozes para dizer tudo aquilo que não podem. Quisera eu, fruto de orgulhos e egoísmos anti-políticos, escorregar na saliva de qualquer comentário que por entre aquela viela passar e reverberar. Não entro neste lugar aberto, porque em mim, ainda moram muitos lugares fechados.

  • Artur Dória
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