Pilha de pratos

Deslizei a faca suavemente tentando cortar o atum, selado em uma frigideira com óleo quente, e depois disso passado em uma cama de gergelim torrado, de maneira uniforme para que pudesse completar o prato que já estava quase vinte minutos atrasado. Na pressa, entre vários gritos, passei a faca muito rente ao dedo, e o resultado não foi outro, se não uma lasca do dedo minúscula arrancada, e um filete vermelho de sangue escorrendo persistente. Peguei um pedaço de papel toalha na prateleira de inox, cheia de temperos que ficava na altura de meus olhos e tentei estancar o sangramento, mas sem muito sucesso.

  • Cheff, vou para meu intervalo. – Gritei.

  • Tudo bem, deixa que eu finalizo aqui.

Então ele pegou a faca, e com a maestria que se pode esperar de um cheff, fatiou igualmente as fatias do atum, colocou os molhos que acompanhavam a tenra carne, e enviou o prato junto de sua comanda, para o segundo andar da casa, pelo elevador.

Sai pela entrada de serviço lateral, e fui para a beira da lagoa fumar um pouco de maconha para ver se o sangramento parava. Essas merdas de pequenos cortes me perseguiam, desde meus primeiros dias dentro de uma cozinha. Primeiro lavando as louças de um delivery de sushi, quando precisava lavar as facas dos sushimans, facas essas que pareciam verdadeiras adagas, capazes de cortar o dedo de uma mão destreinada, apenas tateando por sua lateral.

As facas com o tempo passaram a ser mais um dos meus muitos vícios. Caralho, como eram lindas. Suas laminas sempre bem tratadas e cuidadosamente afiadas vinte e sete vezes de um lado e três vezes do outro, segundo tradições orientais, como me disse um negro maranhense que me ensinou um pouco da arte das facas.

Peguei meu cachimbo, que sempre carregava no bolso, parti um pouco da maconha que trazia no bolso, e taquei fogo na beira da lagoa, olhando a lua que estava enorme naquela noite. A primeira tragada me ajudou a aliviar um pouco do cansaço daquele dia enorme de trabalho, em que eu me aventurava a encarar uma jornada de pouco mais de dezesseis horas. Olhei no relógio, ainda faltavam mais quatro horas de trabalho, e foi só o tempo de terminar de fumar, que meus quinze minutos de intervalo, já estavam se acabando. Voltei pela entrada de serviço, peguei o kit de primeiro socorros, coloquei uma porra de band-aid no dedo, enfiei uma luva na mão, tomei um copo d’água para disfarçar o cheiro de maconha que saia de minha boca, disfarce esse que não era tão necessário, afinal de contas, todos que trabalhavam naquela cozinha fumavam um pouco de erva. Até onde eu sabia, essa era uma das equipes mais tranquilas que eu havia trabalhado, sem ninguém que usava cocaína, também carinhosamente conhecido como “cheirador”, ou drogas um pouco mais pesadas. Pelo menos não com frequência.

Entrei na cozinha e pedi para ficar lavando louça até o fim da noite. La no fogão, algo parecia pegar fogo, no meio da pilha de pratos, olhei ao meu redor e pensei como tinha sorte de trabalhar com algo que eu amava tanto, então liguei a torneira, peguei a esponja de aço, e comecei a esfregar uma pequena forma de ferro, cheia de queijo queimado e quase fundido.

pilha de pratos

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