Um Cara Idealista

Um cara idealista

Juca era apenas mais um desses caras comuns que idealizam sonhos todos os dias, mas ele era diferente numa singular perspectiva: seu sonho não alternava, e enquanto todos mudavam seus objetivos dia após dia, ele apenas idealizava de melhor maneira o seu. Queria, de qualquer modo, fazer seu maior e único sonho dar certo. Isso era tudo que pedia aos céus. Sua única paixão sempre fora a leitura, e por isso, sonhava fundar sua própria editora. Parecia um bom plano, não precisaria ser subordinado a ninguém, e se deliciaria lendo cada original enviado.

Aos vinte e um anos, escolheu um dos seus sobrenomes, e registrou a sua editora, no momento, ainda fantasma. Era algo bem simbólico. Algo que ninguém acreditaria que pudesse sair do papel. É claro, ninguém acreditava nele ou tampouco em sua editora. Mas ele acreditava.

Juca não tinha lá muita grana para investir, e suas ideias superficiais o faziam ser tratado com desdém por aqueles do ramo. Suas coletâneas online não recebiam contos ou poesias para análise, e a editora, cujo endereço indicava sua casa, raramente recebia um original. E quando recebia, era via e-mail.

Guido, seu amigo, um cara sensato e destemido, vendo a situação utópica que se encontrava Juca, ousou ter a coragem de dizer o que todos queriam dizer, mas covardemente não diziam. E num dia qualquer que se esbarraram, disse:

— Cara, se toca. Ninguém dá a mínima para sua editora. Você não tem moral para pedir originais. Todos se sentem como se pudessem cobrar de você para ter um original deles, e não te enviar que avalie. Desista, é o melhor que pode fazer. Você nunca vai conseguir.

Naquele dia Juca chorou a noite inteira, e no dia seguinte também. Chorou como chora um fracassado sem estilo, se entregando a própria derrota.

Um homem comum teria desistido, mas, na manhã seguinte ele não cogitou essa possibilidade. E se cogitou, não exprimiu nem para si mesmo essa ideia. Resolveu fazer das palavras ditas por seu amigo a sua maior motivação. Não podia deixar que ninguém lhe dissesse que não iria conseguir. Era um idealista, mas não era burro, sabia que na determinação pulsa vontade, e vontade é a única coisa que pode manter um sonho vivo.

Alguns anos depois, Juca conseguiu o que tanto almejou. E quando já adquirira sua editora certo respaldo, rezava para reencontrar seu antigo amigo Guido, que deixou de ver após mudar de estado em prol da editora.

Com este objetivo, resolveu viajar para sua cidade natal, onde assim chegando, reencontrou Guido na rua.

Louco para mostrá-lo que estivera errado o tempo todo, e para provocar um sentimento de culpa e constrangimento no rapaz, disse:

— Ei, olha só, você estava errado! Estou morando em São Paulo, e a minha editora é bem-sucedida agora. O que acha?

Guido não se importava, sempre fora um cara desprendido de tudo e apenas sorriu, ao ver o amigo bem-sucedido ao conquistar o que tanto almejou, depois de tanta persistência.

Juca esperava ao menos um suposto gesto de surpresa de Guido, mas ele apenas levantou os seus óculos escuros, e disse:

— Sabia que conseguiria, mas você precisava que eu dissesse aquilo para que tivesse determinação de fazê-lo. Você nunca perceberia que não seria fácil. Eu disse o que tinha de ser dito, e agora você conseguiu. Se fiz isso, é porque acreditava em você. De qualquer maneira, fico feliz por você Juca.

Juca parou, olhou nos olhos de Guido, e o observou bater levemente em seu ombro, como uma forma de cumprimento. Partindo então, após a resposta. Foi quando percebeu que para Juca pouco importava, e a felicidade dita foi apenas um ato respeitoso. Aquele ato consumado anos atrás não tinha sido um ato de ódio. Na verdade, aquele tinha sido um dos maiores atos de dignidade que Juca pôde vivenciar.

E depois de tantos anos sem deixar cair novamente uma lágrima sequer, no auge do seu sucesso, Juca mais uma vez, se pegou chorando durante uma noite inteira. Chorou como chora uma criança ingênua ao perceber que errou.

Mas, dessa vez ele não chorava como um derrotado, tampouco como um fracassado. Ele chorava por um sentimento de culpa ao carregar um misto de emoções. Uma miscelânea de felicidade, agradecimento e vergonha.

Ele tinha percebido que a frustração a qual viveu e tanto odiou, foi o gesto mais nobre que já praticaram a ele, e isso doía.

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