Mirando bem – Saulo Matos

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ouvi sussurros borbulhantes
e graves puxadas de ar
desesperadas
e então silêncio
e silêncio
então os sons
retornavam cada vez
mais agudos
e agonizantes,
havia outro som
estranho
misturado aos outros
e eu não conseguia
distinguir
que merda era aquela.
continuei andando
e o inferno dos sons
como mil crianças berrando
em coro
aumentou
e o cristo redentor
tapou os ouvidos
disfarçadamente lá de cima,
mas eu notei
e não contei pra
ninguém.

descobri que o som
estranho
era o de água batida
por algum infeliz
que se afogava
caprichosamente,
muito intenso e
digno de Oscar
se fosse uma interpretação,
o que não era o caso.
me aproximei da beirada do pier
e dei uma olhada,
o corpo estava submerso
se sacolejando,
me senti na apoteose,
sentei e acendi um cigarro
e aguardei que ele submergisse
mais uma vez,
demorou mais do que eu esperava
e então ele surgiu,
aquele filho da puta!
o destino se afogando
bem na minha frente
no mar e no esgoto,
abri o maior sorriso
que já sorri na minha vida,
coloquei o pau pra fora
e mirei bem
muito bem,
acertei meu mijo
de cerveja na cara dele,
se o cheiro não estava bom
imagina o gosto!
quando estava acabando
ainda forcei o abdômen
pra sair mais.

guardei o pequenino
enrugado
e fui embora
cantarolando
uma musica ridícula
que havia escutado
no rádio naquela manhã,
parei por um minuto
calei a boca
e o silêncio finalmente
dominava o cenário,
que coisa linda.

aquele foi um dos dias
mais felizes da minha vida.

Saulo Matos

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