O vaga-lume ideal

Imagem retirada desse site aqui: www.hypeness.com.br

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Um pequeno vaga-lume se aventura pelo meu quarto enquanto tento conciliar a leitura de um texto difícil, hermético. Ele voa em espirais como se estivesse numa louca montanha-russa imaginária. Deduzi que se tivesse voz estaria gritando, alucinado. Calculei se poderia acertá-lo com a havaiana que descansava do lado da escrivaninha, mas logo desisti da ideia. Permiti que vagasse (era a minha tola crença de que tenho algum poder de decidir o futuro de alguém ou de alguma coisa atuando mais uma vez).

Vagou pelo quarto o vaga-lume. O vaga-lume vagou. Vagou e voou, vestido de verde incandescente. Sentiu-se vitorioso. Exuberante. Tenho certeza de que naquele voo errático e desnorteado por um universo de livros e meias de três dias atrás amontoadas pela cama, sentiu-se o vaga-lume dos vaga-lumes, o vaga-lume ideal. O vaga-lume que se livra do mundo da caverna e desnuda-se para a materialidade. Um pequeno raio de sol que se desgarrou do universo lindo que é o começo de uma noite na primavera e entrou na primeira janela semiaberta. Poderia até quem sabe ser cultuado no reino luminoso dos vaga-lumes como aquele que se aventurou por um quarto sorumbático e misterioso, até então nunca explorado, e saiu vivo. Meus olhos lacrimejaram. Estava notando a vida como ela é, em sua simplicidade e boniteza.

Às vezes, e isso é muito raro, a vida pode ganhar sentido em pequenos momentos como esse. São os pequenos momentos, nada mais que alguns lapsos, que formam toda a nossa vida. Passamos toda uma existência esperando por grandes feitos, aqueles que definitivamente nos tirarão da merda ou esperando por grandes merdas inevitáveis que nos esquecemos de que, na verdade, grandes vitórias ou grandes merdas são a exceção de toda uma vida. A maior parte de tudo o que vemos nos passa invisível perante os olhos. Passamos pelo mundo e absorvemos pouco.

Não gosto de cagar regras, viva a tua vida como bem quiser. Mas pelo menos perceba os vaga-lumes que entram no teu quarto por acidente. Acompanhe com os olhos o rastro verde que deixam por onde passam. Eles são lindos e trazem alguma poesia para uma existência pálida como a que levamos.

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