Viajando por ai e voltando para ti – Saulo Matos

Fiedrich
já provei
da sua fonte infinita
de felicidade
e pesares
algumas vezes,
uma em especial
ainda surte efeito
devastador
nas ligações
nervosas que
viajam
dentro do meu crânio,
então esse poema
é para ti
que me mata
em vida
com a simples
ausência.

se o amor
tem sabor
é aquele que ainda
me pego sentindo
nas longas madrugadas
que viajo.
aquele gosto
sublime do
seu gozo
que jorrava
pela minha língua
e barba
mal feita
enquanto suas
pernas
se retorciam
nos áureos
dias de outrora.

mas ultimamente
a existência
deste êxtase apaixonado
é algo distante pra mim,
um ser lendário
à alguns parsecs
de distância
acenando longínquo
enquanto me torno
lentamente
uma estátua da
minha própria
vida.

todas as noites
que passo trancafiado
entre os nove círculos
do inferno
beijando memórias
românticas
feito louco,
sou obrigado
a fechar os olhos
quando elas acabam
e partem me deixando
só com a
insanidade.

então visito todas
as consciências
de todos os
seres que permeiam
a existência
em todas as suas formas,
dos mais simples
aos mais complexos,
em busca de uma
explicação
para a latência
e tristeza
em meu peito.

fui um gorila na Ásia
lutando pela liderança
do meu bando
e de macho dominante
fodedor.
mas abandonei
a briga já na metade,
pois no fundo eu
não estava nem ai
para todo aquele lance
de liderança.

fui um leão africano
descansando na sombra,
uma diva coçando o saco
esperando minhas douradas
e implacáveis musas
retornarem da caça
com meu jantar.

fui um bisão
perdido da matilha
com a plena percepção
de que estava fodido
e que iria morrer
na relva.
corri até minhas patas
pedirem arrego
e o ar escapasse das
minhas tentativas
de suga-lo.
pensava que morrer
de cansaço seria
mais tranquilo
que dilacerado,
não morri de cansaço
e fui dilacerado do
mesmo jeito.

fui uma formiga
e nunca trabalhei
tanto na minha vida,
pra lá, pra cá
carregando folhas de uma tonelada.
me diziam:
“pense na comunidade”
não durei muito
pois resolvi morder alguém
que me esmagou de
imediato,
graças a Deus.

fui uma águia
americana
observando
como a vida
e todo o resto
parece tão
belo visto
de cima,
não havia nada
além daquilo
e era quase
que perfeito
em minha magnitude
solitária.

fui um rockstar
junkie
sendo estuprado
por groupies
que não faziam
ideia que a depressão
me contaminara por completo
e o suicídio me soava
algo belo e puro
do qual já
havia fracassado
em duas tentativas.
elas abusavam
de mim,
com línguas e dedos
e bocetas e todo o resto
enquanto eu bebia
e sangrava pelo nariz.
elas achavam tudo
lindo
dizendo que me amavam
e que eu era foda!
queria que alguém me matasse,
mas ninguém matou.

fui um idoso em seus
últimos momentos
ofegantes
de vida,
senti a morte me segurar,
mas não me importei
pois outra mão me segurava
mais forte e apaixonadamente,
a minha velha se debulhava
em lagrimas e declarava
todo o seu amor por mim,
a morte nos deixou a sós
por mais alguns minutos
e eu senti o universo
sofrer,
demos um último beijo
e então eu parti.

conheci outras dimensões
e outras existências
vivi nas montanhas
no mar
no ar
na terra
e no seu corpo,
senti
todas as experiências
na pele
e na alma.
fui tudo!
estive em todos
os cantos,
sofri,
cacei,
morri,
matei,
amei,
odiei,
tive a pureza
de um bebê
e a maldade
de um assassino.

mas amei
em todas as instâncias
possíveis
e de maneiras
ainda desconhecidas.
e eu não trocaria
a minha inconsciente
consciência original
e as experiências
mais loucas
que tive contigo
por nenhuma outra.
nosso amor violento
e visceral,
puro e selvagem,
ou frio e capenga,
rotineiro, na merda
doentio e lindo.
lindo em sua complexidade
insana de nuances
borradas pelo tempo
que arrasta tudo
para distâncias
incalculáveis
e imperdoáveis.

mas ainda assim
eu não desejaria nenhuma
das vidas do universo
pelo pouco de vida
que passei
com você,
dona desse poema
e do pouco de alma
que me resta.

Saulo Matos

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