O homem que matou tudo, para não matar a si mesmo.

O homem sentenciado à morte

em vida…

Vaga pela sua casa

acorrentado a si mesmo

pelos pés

observa a bola de ferro

ao seu lado

conectada às correntes

Ouve o piano

e todo o pouco que tem

ao seu redor

desprovido

de amor

desprovido

de ódio

desprovido

de quase tudo

O homem

vaga para o canto

mais obscuro de sua casa

Separa a cocaína

com sua lâmina

e a usa

Desprovido de razões…

o homem caminha

até a gaveta

e puxa sua glock

destrava

e mira contra sua têmpora

aperta o gatilho

sem cogitar uma ideia

um único pensamento

sem esperanças

O tiro falha

e o homem sentenciado

chora

seu rio de sangue

seu rio de dor

seu rio de perda

seu oceano de tristeza

que não consegue abandonar

Para esse homem

não existe a natureza

não existe mulheres

tampouco lhe resta

um Deus

ou um santo

qualquer entidade

além da sua

no breu de seu quarto

ele se deita

alucinado

de lembranças

que terminam de mata-lo.

O homem sentenciado

não tem mais nada

além dessa visão

para dentro de si

e para os cantos

dessa casa

onde lentamente

se castiga

em seus pulmões

em suas narinas

sua garganta

suas veias

seu sangue podre

sua alma podre

ele encara durante

horas

a ultrapassada máquina

de escrever

até que…

resolve se aproximar…

O homem sentenciado

com suas mãos

já desatadas

abraça

sua antiga máquina

a fita

da máquina

se mistura

em suas lágrimas

que ele nem imaginava

que ainda

podia chorar

sentado

enquanto seu mundo

de dor se quebra

uma chuva de cristais

névoa de memórias

O homem não mais sentenciado

à morte

e sim

à sua própria máquina

observa a vastidão

ao seu redor

e de repente

desperta seu amor

por algo

que ainda desconhece

enquanto seus olhos brilham

um brilho

desconhecido

vivo

O homem agora

sentenciado

às palavras

não entende

absolutamente

nada

mas entende

que não precisa entender

pois está sendo resgatado

resguardado

e então…

ele destrava

sua glock

para os Deuses

para o sol

para a dor

para as correntes

para as mulheres

e para tudo que já foi seu

e hoje está morto

e finalmente

atira.

— Rennan Sama

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s