calçadas descalçadas

estilhaços de pedra se desprendem do chão urbano

malinas sucessões de erosões da superfície infértil

que querem voar a ver

belezas no asfalto.

São desencaixes de passos inacabados

que povoam e habitam calçados:

desertos de corpos desencarnados.

vai uma foto aqui para registrar

mas também pode ser dali.

objetos tortos

olhar torto

e meu corpo entorta

bem na hora do disparo.

sigo com passos aleijados

mas não tropeço

apenas varejo a minha calma

sem pressa

um olhar de manutenção ao redor.

muitas pessoas escorrem para as suas casas

o expediente acabou

esvaziam o comércio

tudo a fechar.

me encontro com as sobras de sombras aflitas

uma multidão de descalços.

calçadas descalçadas

decalcadas de pele seca

sem calça

descascada na faca dos pés.

peles e subpeles

a cidade é um réptil inflado de escamas

queimadas e fatigadas pelo sol

o demônio sol

que prefere e insiste.

sei dos seus desígnios:

quer desnudar a cidade

dissecando-a em sua brevidade.

já eu,

enquanto isso,

no paradoxo do meu contragosto

sempre gostei dos meus passos

e acredito,

rezando sem grito

para o pandemônio do meu intento,

que expelem nas rugas das ruas

espécimes sugestivas de cremes hidratantes.

 

Artur Dória

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s