Queria escrever sobre versos de amor, mas me falta dom

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Tento fugir da angústia que vive no meu peito

mas o máximo que consigo é despejar com fúria no papel toda a raiva que sinto do mundo. Os sons externos ao meu quarto escuro, fechado e quente me irritam e qualquer forma de contato com pessoas me causa repulsa

A vida lá fora pulsa

Apesar da melancolia extrema que me bate por dentro como jabs de direita e esquerda até transformar meu coração numa massa disforme de carne,

a vida continua do lado de lá da janela quebrada

precariamente consertada com antigos jornais, tostados de sol, amarelados de 1999

[a seção de policiais dá a manchete da prisão de um estuprador cruel e frio que a essa altura deve estar queimando no inferno, eu espero] e durex

cinco cachorros tentam trepar com uma fêmea no cio enquanto ela foge, esganiçando, desesperada

crianças saem correndo felizes para a liberdade da rua de asfalto recém molhado de garoa depois da sineta da escola. Ingênuas, mal sabem que já nasceram com o destino traçado. Nada do que tentem vai dar certo, nenhum projeto, nenhum sonho. Nada. Serão sujeitas ocultas no glamour da vida de alguns poucos escolhidos. E não há nada que possam fazer para mudar o destino que já foi traçado antes mesmo de elas nascerem, talvez pelos seus pais, avós, bisavós ou uma entidade maligna com um senso de humor brutalmente asqueroso

Há muito que deixei de tentar afogar as minhas mágoas na bebida; elas aprenderam a nadar com uma velocidade espantosa, assim que barris de qualquer porcaria com 50 por cento de teor alcoólico ainda não seriam o suficiente para me fazer esquecer de nada ou ter um porre homérico para sentir o gosto do céu

Desço aos porões da cidade para caçar uma puta ou um mendigo com quem dividir um cigarro ou uma garrafa de qualquer coisa. Putas e mendigos são os amigos mais honestos, sinceros e leais que qualquer pessoa com o mínimo de dignidade pode ter. É isso o que eu acho, pelo menos.

Decido voltar pra casa e continuar a escrever alguma coisa que preste

há algum tempo trabalho num poema que fale de versos de amor e pescaria. Sempre gostei dessa combinação. E de chico buarque. Porra, eu sempre gostei de chico buarque, se eu fosse mulher, dava pra ele

Bato com força no teclado, coloco os versos de amor, as pescarias e o puto do chico buarque, tento sentir tesão pelo que estou escrevendo, mas o que resulta é uma coisa insossa, sem graça, como um filho que assumi mesmo sabendo que não era meu

entendi que para um homem escrever algo que preste, precisa ouvir o som que nasce no meio do peito, como um ronco, para que soe mais honesto consigo mesmo . Só assim escrever lhe será um (raro!) prazer.

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