Mensageiro da dor – Vítor Oliva

Não se aproxime
O sol nunca bate por aqui
E a felicidade jamais reina
Neste mundo obscuro
E explosivo
Que me corrói as entranhas
Onde ninguém jamais entenderá
O que se passa aqui dentro

Posso ser demasiado grosso
De um cinismo, por vezes, involuntário
Mas devidamente certo
Ou, apenas, uma lâmina afiada

Apenas um vagabundo
Que finge ser poeta
Um drogado qualquer
Que não tem mais volta
E almeja a impossibilidade
De sempre tentar voltar atrás
Para consertar estilhaços
Que cortam os pés de quem tenta intervir
Em vão

Não se aproxime, meu bem
Posso ser seu fim
Ou apenas mais uma decepção
Em sua vida tão perdida
Quanto a minha
Mas, em nosso mundo,
Eu sou a escória da sociedade

Eu simplesmente não optei
Por ser um exemplo de bom sujeito
Que vaga pelas calçadas
Regurgitando impropérios
A gente como eu
Estufando o peito
Se autoproclamando honesto
Cidadão de bem
Defensor da moralidade
E da família
Que ousa julgar o errado e o certo
Enquanto é só mais um
Cooperando com esta chacina

Não se aproxime
Você pode se cortar
Eu sou somente um revoltado
Diante as convicções que construíram
E que queima, queima e queima
Sem cessar

Não se aproxime, meu bem
Você vai se arrepender
Se você enxerga apenas como os demais
Você vai se arrepender
E eu vou te fazer sofrer
Atordoadamente
Mais do que eu já sou

Não veja como algo pessoal
É apenas o que gente como eu
Costuma causar em gente como você
Sou perturbador e indolente
E você quer apenas um pouco de sossego

Esse mundo e essa vida
São ambos injustos demais
E parece não haver muita coisa
Que possamos fazer
A não ser seguir o fluxo
Ou se afastar dele, no meu caso

Não se aproxime
Eu sou apenas um homem mau
Que já cometeu crimes
E não tem receio de morrer
E, pode ser,
Que eu venha a causar a morte de alguém
Que se aproxima demais

Você quer apenas um pouco de sossego
E eu sou um sujeito qualquer
Que não consegue se enquadrar
Nesse sistema que insiste, amiúde,
A tentar nos direcionar
Para o caos

Vá, não se aproxime mais
Realize seus sonhos
Ou apenas suas vontades
Mas, caso queira, eu permanecerei aqui
Mas pode ser
Que não por muito tempo

Então vá, meu bem
Não faça parte desta insanidade
Porque seres como eu
Não têm diagnóstico
E não conseguem, por mais que se esforcem,
Se retratar

Você tem uma longa vida a seguir
E meu destino é sucumbir
Eu não quero mais mudar o mundo
Para melhor
Mas pode ser que o fim
Venha pelas minhas mãos.

amargura

 

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