A balada das fumaças – Saulo Matos

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a cidade me traga
a ponto de tossir
e espalhar vários filetes
tóxicos de frações de mim
na atmosfera judiada
por nós,
e eu trago a cidade
bem devagar,
como num baile tântrico,
e expiro tudo de uma
vez
em uma única direção
para que demore a se dissipar
por completo.

observo calado
a balada das fumaças
e das cinzas
em algum lugar sortido
longe do paraíso
bem longe do paraíso,
onde facas cegas
esgueiram nos becos,
monstros e anjos
usufruem a companhia
da noite,
lá nos buracos
onde as tripas
encontram cutelos
lustrosos
para o gozo
da loucura.

fumo a cidade com filtro
vermelho e cuspo a saliva
envenenada nas curvas
da ambrosia melada
em que caminho,
meio morto,
meio sorrindo.
a cidade me fuma sem filtro algum
e engole fumaça
saliva e um pouco de tabaco
como se fosse uma cerveja
milagrosa no deserto,
e eu já estou no fim.
ela dá uma última tragada,
eu dou uma última tragada,
ela me apaga com os pés
descalços,
e eu já não sou
mais ninguém,
mais nada
além de cinzas
que você inala
sem perceber
em algum canto
ainda longe do paraíso.

Saulo Matos

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