ode aos errantes

o sol roçava o rosto áspero,

gotas de suor pingavam,

evaporavam no asfalto.

seguia firme

passos incansáveis

molestando sem dó as ruas por onde vagava.

“NÃO! Estas ruas não”, alguém gritou, mas logo se escondeu.

ninguém se assumia.

olhares lazarentos

o acompanhavam

e rugiam em expectativa furiosa,

desejosos de que o horizonte o engolisse por completo.

“Vá embora, não o queremos aqui!”

novamente alguém, escondido pela penumbra, berrou.

ele não ligava

apenas esperava

muito paciente

a decadência destas respirações emboloradas

e ofegantes demais para a excursionar pela paisagem.

parava onde estava

e limpava a garganta com uma escarrada grossa.

sacava um cigarro amassado do bolso,

caubói urbano marrento,

e acendia

escorado em algum muro qualquer.

cara de gozo logo na primeira baforada

sacanagens a contar

talvez sobre alguma desventura poético-patética

acontecida no além destas terras remotas.

ele não sorria

mas todos achavam que sim

ninguém ousava se aproximar

ninguém dizia mais nada.

ele parecia bastante à vontade

e as vezes baixava as calças para uma mijada

ou mesmo uma cagada segura.

o horizonte nunca chegava

a caminhada, então?

nunca cessava.

dias e noites assim

até a sola de sua chinela rabugenta se decompor e sangrar.

não é esse o seu fim

a ele não interessa ter os pés rachados e queimados.

de certo encontrará algum sapato furado

perdido no caminho

que lhe servirá de abrigo por mais algum tempo.

Artur Dória.

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