O ciclo vicioso do escritor decadente

1798009-158623-1280Ao mesmo tempo em que ouço as vigas da velha casa rangerem e os galhos da pitangueira castigarem impiedosamente mais uma vez as telhas de zinco, minhas articulações protestam, enquanto me preparo para dormir. Me empertigo no meio da cama, mas me lembro que a única posição permitida pelas minhas massacradas omoplatas é de lado, especificamente à esquerda do colchão.
Enquanto me aninho, lá fora deus decide que um domingo à noite melancólico e agonizante é o melhor para o apocalipse. Penso:
– Ok, tudo bem. Desde que do outro lado existam cafés e bibliotecas sem prazo para entrega dos livros, o céu será um lugar perfeito.
Enquanto a divina vingança chacoalha a velha casa de madeira, procuro na escrivaninha um papel e uma caneta. Preciso escrever uma bobagem ou outra e quando surgem estes rápidos disparates mentais, nada de quinquilharias tecnológicas. Tudo isso é uma tremenda besteira. No rascunho um nome e um número de telefone anotados de maneira rápida e despreocupada há tanto tempo que talvez eu já soubesse que aquele nome e aquele número teriam encontrado seu fim naquele pedaço de papel. É estranho imaginar que algumas ligações jamais serão feitas e que certas memórias sempre jazeriam esquecidas debaixo de um Juan Carlos Onetti não fosse essa necessidade absurda de escrever no meio da madrugada indecente de um começo de semana. A febre da escritura me tomou conta e Deus e eu sabemos que não será possível dormir sem que essa folha em branco seja recheada por alguma coisa.
A chuva açula a ventania e agora ambas se peleiam para decidir qual a intempérie mais poderosa. A casa geme. Minhas articulações protestam. Escrevo. Não por que precise escrever. É que de repente descendeu uma musa dos céus. A inspiração materializada. É pena que tenha surgido para um escritor tão medíocre e descompromissado. Os eixos sintagmáticos nunca contribuíram com os paradigmáticos, de maneira que minha escritura sempre resulta em algo tolo e monótono.
Do velho papel não brota nenhum verso mágico, nenhum parágrafo que valha a pena ser lido. De fato, alguns rascunhos nasceram para servir de túmulos para nomes que nunca mais serão lembrados e registros de números de telefones cujas ligações jamais serão feitas. Me empertigo na cama de maneira débil e idiota, ciente de que não houve testemunhas desta tentativa fracassada de nascimento de um escritor. O papel todo rabiscado com frases incompletas, riscadas, rasgadas, violentadas volta pra debaixo do Estaleiro, de onde nunca deveria ter saído, e volta a ser testemunha ocular do retorno de Larsen a Santa Maria.C’estfini.
Borges jurava que à noite todos somos dramaturgos, encenando narrativas diáfanas. Percebo, então, que comecei de maneira equivocada. É no sonho que encontrarei meu universo narrativo. E assim que acordar, quem sabe. Me ajeito no colchão, ouço o turbilhão lá fora, a janela protestando, as telhas sendo chibatadas . Durmo o sono dos escritores sem talento, daqueles que brigam com a escritura ao invés de tratá-la como a própria namorada.
Sonho que ouço o barulho de vigas e galhos de pitangueiras moribundos de inverno chibatando telhas de zinco que só deus sabe até quando vão aguentar. Sonho que de súbito fui acometido por uma irreprimível vontade de escrever. E escrevo uma ou outra bobagem qualquer em um pedaço de papel há muito envelhecido e inútil.

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