Diários de viagem – Parte 2 – Samaipata e Sucre

Parte 1

Depois de descansar algumas horas num hotel vagabundo e fedorento que ficava pertinho do terminal bimodal de Santa Cruz de la Sierra, que nem água quente tinha, embora houvessem garantido ter, mas o peso das mochilas aliado ao cansaço, ao calor e estar no terceiro andar, nos fez aceitar de bom grado as condições. Eu ja havia passado por Santa Cruz de la Sierra em 2013, e nada me chamou a atenção na cidade, ela é quente, feia, suja e passa muita insegurança. O clima muda a cada minuto, e nas horas que ficamos acordados vimos prenuncios de fim dos dias, alternado com sol e rajadas de vento. A cidade é, ao que parece, bem projetada, e construida em anéis. Se você não consegue imaginar como isso seria, veja no google mapas. Nosso primeiro destino na Bolivia não era certo, pensavamos em ir para Cochabamba, para visitar um amigo meu, estudante de medicina que conheci na outra viagem em 2013, ou ir para Samaipata. Como não consegui contato com ele no dia, acabamos optando pela pequena e desconhecida Samaipata. No terminal bimodal, me indicaram que em uma pracinha no segundo anel da cidade, conseguiriamos o onibus ou van que iria para Samaipata, porém ninguém sabia informar muito bem horarios e valores. Do hotel até essa praça, pagamos 17 bolivianos, por uma corrida de taxi de mais ou menos 20 minutos, isso faz pensar, que no Brasil, somos explorados enormemente pelos cartéis do táxi, mas isso é apenas um dos muitos problemas que temos, então isso é assunto para outro momento. Chegando na praça, você encontra várias agencias, lojinhas que vendem comida de higiene duvidosa, e um monte de gente estranha no meio do caos de um fim de tarde em qualquer grande cidade. Compramos as passagens com saida para as seis da tarde do mesmo dia, ao preço de 20 bolivianos, por uma viagem de 4 horas. Ficamos sentados na praça esperando o horário enquanto admiravamos o caos, vendo como é a rotina desse povo sofrido, e refletindo que por mais que achemos que a vida anda dificil por aqui, por lá, ela ainda é um pouco pior. Quando entramos no onibus, vimos que ele era extremamente superior ao lixo sobre rodas que nos trouxe do Paraguai até a Bolivia. Depois de alguns minutos de viagem, entraram umas crianças gritando e vendendo frango frito com batata frita, por 4 ou 5 bolivianos, e tava bom pra caramba. Esqueça esse lance de ter medo de comer tudo que aparece pela frente, eu sou prova viva que isso não é problema, já a Gabi não teve muita sorte, mas isso eu conto melhor mais a frente. Depois de umas duas horas de viagem, nosso onibus que embora novo, não tivesse banheiro, parou no meio do nada e entao o motorista anunciou: “Baño”, que seria teoricamente uma parada para ir ao banheiro, mas não, não foi, foi uma parada no meio do nada pra galera mijar no mato. Pra mim, sem problemas, e para as “cholas”, também não pareceu ser, elas erguem suas saias gigantes na moral e mijam em qualquer lugar, isso não teria problema algum, se não ocorresse nas ruas das cidades. Chegamos em Samaipata por volta das 10 da noite. O onibus para na rodovia e anuncia a cidade, então você desce no breu total, sem pai nem mãe, e sai perguntando “donde hay alojamentos economicos?” para qualquer alma viva que encontre pela frente. Acabamos encontrando um depois de duas ou tres tentativas, que tinha agua quente, com banheiro privado, por 140 bolivianos a noite, mas depois de um pouco de conversa e choro, tudo resolvido em 50 por pessoa. A pousada não tinha cozinha nem wi-fi, mas depois descobrimos que internet na cidade é uma espécie de lenda, o unico cyber tinha internet de vez em nunca, e nas três vezes que tentamos, não tivemos sorte. Tomamos enfim um banho quente, e fomos dormir, pois no dia seguinte o plano era atacar “El Forte de Samaipata”.
Acordamos cedo, e enquanto a Gabi levantava, fui a caça de cerveja e algo para comer. Então começou a parte triste da Bolivia. A pior cerveja que eu consegui encontrar, que se chamava “Cordillera”, na verdade nem era tão ruim assim, mas custava cerca de 3 reais a lata. E ERA A MAIS BARATA! Isso foi um grande problema para mim, mas também foi uma ótima oportunidade de desintoxicar um pouco. Comprei algumas provisões e fomos ver como poderiamos chegar no forte. Na praça central de Samaipata, tem uma porrada de taxista que fica levando e trazendo a galera pros passeios que a cidade dispõe, tem umas cachoeiras, e mais umas coisas que parecem ser bacanas, mas nosso objetivo era o forte. Depois de negociar os preços, não conseguimos descontos, e o valor de 100 bolivianos para ida e volta, parecia alto para nós, algo como 40 reais. Então, tivemos a brilhante ideia de ir a pé. Nos disseram que isso seria impossivel, ou ao menos muito dificil, e eu como genio que sou, disse para a Gabi: Vamo nessa! A vista da caminhada, sem dúvida alguma, foi uma das mais legais da viagem toda, o unico problema é que foram mais ou menos 12 kms, sendo cerca de 7 kms apenas de subidas, e quando chegamos lá em cima, ainda tinhamos que pagar mais 50 bolivianos cada para entrar ao sitio. O passeio lá leva cerca de duas horas, e é muito interessante. Do forte você tem visão total de todo o vale, e consegue entender por que ele foi construido. De lá de cima da pra ver os inimigos vindo com um bom tempo de antecedencia, e até o Che Guevara se escondeu por lá quando o bagulho ficou doido pro lado dele. Embora o local de uma tremenda vista, pelo que podemos ver na história, isso de nada adianta, pois os espanhois tomaram o lugar, e o Che se fodeu alguns seculos mais tarde. O forte é construido todo de pedra, e te faz pensar em muita coisa, desde aliens até como os incas eram realmente fodas pra caralho. Na volta, não conseguiamos mais pensar direito, quem dirá caminhar, então pagamos 50 bolivianos para um taxista que nos deixou lá na cidadezinha.
Samaipata tem cerca de 7 mil habitantes, e muito gringo pelo que pudemos ver. A cidade é bem colonial e parece ser parada no tempo. Pesquisando bem, você consegue comer uma boa comida por entre 10 e 15 bolivianos. De noite, acabamos gastando os 50 bolivianos que economizamos com a caminhada, comprando remédios para as dores, nos joelhos, pernas e consciencia, mas aprendemos uma baita lição, e vimos que existe a hora certa de economizar e a hora certa de gastar. No dia seguinte, não tinhamos muito animo para fazer nada, e era um domingo, então a cidade toda estava fechada. Não tinhamos muita certeza como sair da cidade, então basicamente fui até a rodovia, procurei um lugar que vendia passagens, e comprei para a primeira cidade que havia onibus: Sucre. A capital constitucional da Bolivia, e viajamos durante quase a madrugada toda. Ainda em Samaipata, encontramos um casal de brasileiros, que também estava indo para Sucre, e depois de uma conversa rapida, decidimos ir juntos procurar um hostel, porque nenhum de nós tinha reserva ou ideia do que fazer por lá.
Lá pelas 5 da manha, chegamos em Sucre, rachamos um taxi, e fomos para a calle Aniceto Arce, onde o taxista nos informou que iriamos achar boas opções economicas. Ele só não nos informou que estavamos chegando na cidade em 25 de Maio, no dia do aniversário do primeiro grito libertário da independencia na América do Sul. Ficamos hospedados no hostel San Marcos, e depois de um cara ou coroa, pegamos o quarto no terceiro andar, por 30 bolivianos por pessoa, o outro casal de brasileiros ficou no terreo pagando 40 por pessoa. O hostel não era muito ruim, tinha uma boa cozinha, camas ruins, banheiros de limpeza incerta, mas era tranquilo. A cidade tava em festa. E quando eu falo em festa, imagina toda a galera de um estado do Brasil, reunida na capital dele pra um desfile. Pensou? Tava mais cheio ainda. Fomos ao Cretaceous Park, que é o maior parque de dinossauros do mundo, segundo eles, que tem a maior escultura de dinossauros do mundo, com mais de 60 toneladas, e um monte de pegada de dinossauro fossilizada. O lugar é bacana e um taxi de ida e volta, saiu por 70 bolivianos para dois casais, ou seja, menos de 20 por pessoa. Na volta ele nos largou no cemitério da cidade, que é um lugar incrivel, mas estava fechado, por causa do feriado, e só pudemos conhece-lo no dia seguinte, mas ai, já apenas eu e a Gabi. Ficamos umas duas horas caminhando pelo meio dos bosques do cemitério e podendo refletir, que se você tem grana pra comprar um puta mausoleu, ou apenas uma plaquinha na parede, seu destino é esse, todos morrem. Nesse dia a noite, iriamos para Cochabamba, na casa de meu amigo, mas cerca de 1 hora antes do embarque, a Gabi passou mal, começou a vomitar e ter uma forte dor no estomago, então tentei remarcar as passagens, mas não obtive sucesso, pelo simples fato de o cara que me atendeu, dizer que era problema meu e não podia fazer nada, então eu carinhosamente amassei elas e taquei em sua cara lhe chamando de filho da puta, em português mesmo. Pegamos um taxi, estava chovendo e desgraça pouca é bobagem no fim das contas, então achamos um outro hostel na mesma rua, mas dessa vez por 100 bolivianos para os dois, com banheiro no quarto e café da manha na cama, além de wi-fi que realmente funcionava. Então ficamos nesse quarto nos proximos dois dias, eu saindo apenas para comprar provisões, até que a situação da Gabi se normalizasse e seguimos viagem para Cochabamba.

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Onibus que nos levou a Samaipata

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Quando começamos a perceber que não havia sido uma boa ideia ir caminhando. 

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Quando percebemos que iria valer a pena.

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El Fuerte de Samaipata

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Outra ponto do Forte.

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Samaipata: um lugar onde o tempo não passa.

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Zebras aleatórias do desfile.

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O caos do dia 25 de Maio. 

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A maior estatua de um dinossauro na Terra.

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Cretaceous Park

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Cemitério de Sucre

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Uma resposta para “Diários de viagem – Parte 2 – Samaipata e Sucre

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