Diários de viagem

No começo de 2013, quando eu voltei do meu primeiro mochilão, tinha certeza que ia voltar pra Bolívia logo que conseguisse juntar grana de novo. Nos últimos dois anos eu tenho sempre que possível, me dedicado a isso. E em maio desse ano, depois de eu e minha namorada largarmos os trabalhos, resolvemos raspar nossas economias e pegar a estrada. A ideia era passar por Paraguai, Bolívia, Peru e Equador, mas com a desvalorização do real, a grana não deu pra chegar no ultimo país. Foram 45 dias de rolê, passando por cidades desconhecidas, fazendo caminhadas de mais de 10 km na altitude, sendo roubados em hostel, tendo infecção alimentar, pegando ônibus clandestino, passando por estradas em que eu via a morte a cada curva, saindo do nível do mar para 3 mil metros de altitude em meio dia, encarando viagens de 30 horas, ficando preso no meio do nada com ônibus quebrado, aturando um monte de asiático chato,  aguentando cochicho em francês no quarto do hostel às 3 da manhã, conhecemos um sem número de gente maravilhosa, mais uma caralhada de coisa. Dormimos no total em 14 cidades, mas passamos por 19 por 3 países: Assunção/PY, Santa Cruz de la Sierra/BO, Samaipata/BO, Sucre/BO, Cochabamba/BO. Tiquipaya/BO, La Paz/BO, Copacabana/BO, Isla del Sol/BO, Cusco/PE, Ayacucho/PE, Lima/PE, Paracas/PE, Ica/PE, Arequipa/PE e Puno/PE.

Dia 14 de Maio, saímos de nossa humilde residência na Lagoa da Conceição em Floripa e fomos para Criciúma, porque o combinado era passar na casa da sogra na ida, e na casa da minha mãe na volta. Depois de passar um final de semana enchendo o saco da minha querida sogra, dia 18, embarcamos para Assunção no Paraguai, numa viagem de 30 horas, por mais ou menos R$ 210,00. A viagem foi cansativa e cara, comer em beira de estrada no Brasil é caro pra caralho, e isso encarece ainda mais a viagem, mas como era começo de viagem, tudo lindo, tudo bacana, tudo da hora. Se você já fez alguma viagem de mais de 20 horas, sabe que depois de um tempo, todo mundo já vira amigo e começa a conversar. Encontramos um bluesman foda pra cacete, chamado Décio Caetano, que mora em Curitiba, e tava indo pra capital paraguaia pra fazer alguns shows nuns cassinos, e ao longo da conversa, descobrimos ter mais de uma dezena de amigos em comum. Os tramites na fronteira, foram super tranqüilos. nos perguntaram quanto tempo iríamos ficar, e nos deram os 3 dias que pedimos. Até o fim da viagem, o busão já estava praticamente vazio, e nos juntamos com mais 3 senhorinhas que estavam voltando do litoral catarinense e nos deram várias dicas do que devíamos ter precaução em Assunção, que segundo elas, era uma cidade, um pouco perigosa, mas pra quem é do Brasil, qualquer lugar é um passeio no parque.

Chegamos por volta das 3 da tarde na capital paraguaia e já nos espantamos com o calor desgraçado que fazia lá. Foi a única cidade que antes de sairmos do Brasil, já sabíamos em que hostel ficar, mas como eu gosto de contar com a sorte, não fizemos nenhuma reserva. O hostel ficava longe da rodoviária, mas era bem localizado, no centro histórico de Assunção. Foi inclusive o hostel mais caro em que ficamos, na confusão do câmbio gigantesco do Paraguai, pagamos 100 mil guaranis, para duas camas, num quarto com 6 camas. Isso dava mais ou menos 20 doláres. As “duchas” eram realmente calientes, e tinha um desayuno bem simples, mas muito gostoso. Os quartos eram limpos e com ar-condicionado. Só nós dois ocupamos o quarto, então tudo tranquilo.

Quando chegamos na cidade, já tratamos de comprar as passagens para o próximo destino, Santa Cruz de la Sierra, numa viagem de que em teoria seria de 18 horas. O preço que eu havia visto na internet era de 200 mil guaranis, mas chegando lá, segundo eles o site estava desatualizado, e o valor na verdade era de 300 mil guaranis, ou 60 dolares. Depois de um pouco de choro, fechamos em 290 mil guaranis, por que uma coisa que você sempre deve ter em mente quando for viajar, é de que sempre deve pedir desconto, mesmo achando barato. Sairíamos às 20 horas da noite seguinte ao da chegada, então teríamos o dia para conhecer o centro histórico da cidade. A noite, dando um role pra procurar cerveja barata, que logo veríamos se tratar de uma ilusão durante toda a viagem, encontramos um flanelinha que era criado no Brasil, mas nascido no Paraguai, super gente boa, que nos deu umas dicas úteis de onde evitar passar para nossa segurança. Ele disse que não voltaria a morar no Brasil porque o custo de vida no Paraguai era muito menor, e que ele fazia ai proporcionalmente seus 80 a 100 reais por dia cuidando carro, tinha droga barata. O único problema era a polícia corrupta, mas como ele mesmo disse, e deixando a hipocrisia de lado, sabemos que a corrupção é uma merda de problema que fode todos nós, latino-americanos. Depois de uma Budweiser de litro numa livraria muito da hora, por 10 reais, fomos pro hostel dormir, pois no dia seguinte, iríamos pular cedo da cama para ver o que tinha pra conhecer no centro. Pegamos um mapa turístico e fomos a pé mesmo, por umas duas quadras e já chegamos na sede do poder local. A cidade não é lá muito limpa, e tem muito casarão antigo, do período colonial, ainda feitas pelos invasores espanhóis. Fomos ao Museo do Cabildo, Palacio Legislativo, Avenida Costanera, Catedral de Assunción, algumas praças, como a Plaza Uruguaya, Plaza de los Heroes, Plaza de Armas, que é um nome de praça que você vai achar em quase todas as cidades, principalmente nas cidades peruanas. Havia manifestações e greves em frente à sede do governo, policia, repressão e a porra toda, e o sentimento de que talvez finalmente nosso continente comece a acordar e se dar conta de nosso poder. O Paraguai chegou a quase ser uma potência há alguns bons anos, mas uma guerra contra Brasil, Argentina e Uruguai foderam o pais, matando 90% da população masculina. [UM GENOCÍDIO PROMOVIDO POR BRASIL, ARGENTINA E URUGUAI, FINANCIADO PELA INGLATERRA. COVARDES HAHA]

Assunção foi disparado a cidade mais cara de nossa viagem, mas depois de muito caminhar e pesquisar, encontramos um restaurante que tinha um tal de “lomito árabe” que era uma espécie de churrasco grego, enrolado em pão sírio, com maionese, tomate e repolho, acompanhado de um molho de pimenta que eu quase comi puro no pote, como bom gordo que sou. As comidas principais do país, segundo as simpáticas senhoras que viajaram conosco, são a chipa, que é uma espécie de pão de queijo em formato de ferradura, e a sopa paraguaia, que na verdade parece um bolo de fubá com queijo e cebola, que não me atraíram, pois eu já os conhecia de muito tempo, por ter sido criado em Campo Grande, perto da fronteira com o Paraguai, e ter muita influência da cultura paraguaia, sobretudo com o tereré, uma espécie de chimarrão gelado. Cada lomito saiu por 18 mil guaranis, e valia muito a pena. Muitos dos prédios históricos da cidade estavam em reforma para esperar a chegada do Papa Francisco, que parece ser o argentino mais gente boa da atualidade. Outra coisa que me chamou atenção foi o salário mínimo vigente do país, 1 milhão e 830 mil guaranis, quase 380 dólares. Depois de descansar um pouco na Plaza Uruguaya fomos caminhar mais e caçar alguns sebos, mas achamos apenas livrarias com livros novos, e todos muito caros, livros que no Brasil se paga algo como R$ 20 ou R$ 25, lá custavam de R$ 40 pra cima. Acabei não comprando nada e depois de muito andar, já era chegada a hora de voltar ao nosso hostel, para tomar banho e terminar de arrumar as mochilas pra seguir viagem. O hostel era muito interessante, em uma antiga estação de trens na cidade, e tinha inclusive um trem parado nos fundos do pátio.    Depois de arrumarmos tudo, pegamos um táxi, e fomos para o terminal esperar nosso ônibus. Quando ele chegou, começamos a ver a péssima ideia que havia sido incluir Assunção no nosso roteiro, mas pra quem queria aventura, aquele era o ônibus ideal. Ele deveria ter mais ou menos 40 anos, todo fodido e sujo, com uma galera dentro que me fez ficar com o cu na mão. Embarcamos e logo depois nos deram uma marmita com arroz e um bife de carne, que para nosso espanto, tava bom pra caralho. Ponto muito negativo pra falta de higiene da galera, que mesmo com o auxiliar do motorista passando com um saco de lixo, a galera insistia em jogar resto de comida e embalagem da marmita no chão, mas, cada lugar tem seus costumes, e a nós, cabe apenas respeitar. Perdi a conta de quantas vezes o exército entrou no ônibus para nos revistar, e já pelas 4 ou 5 da manhã, chegamos na última cidade paraguaia antes da fronteira, Mariscal Estigarribia. Lá foi um pouco tenso, todos com bagagem enfileirada em frente para revista, depois um por um entrando na imigração para dar saída do país, gente armada pra todo lado, e eu com medo de ter algo plantado em nossas mochilas. Foi tudo bem tranquilo, e quando viram que éramos brasileiros, tudo ok, carimbos dados, e segue viagem. Nessa parte, começamos a ver que os colombianos, infelizmente, sofrem uma puta perseguição em toda e qualquer fronteira. Um colombiano sangue bom demais, que estava no ônibus e nos deu importantes dicas sobre a viagem, estava voltando pra casa, depois de 6 meses de viagem da Colômbia ao Uruguai, tudo por terra, ficou um tempo mais com o exército, sendo interrogado do por que viajava, mas no final, tudo certo também, e pronto para seguir viagem. Lá pelas 8 da manhã, estávamos no meio do grande nada que é o “chaco” paraguaio, com sua vegetação verde rasteira, suas árvores barrigudas e sua estrada de chão, de poeira espessa, quando nosso ônibus quebrou. Já estava calor pra caralho, e lá ficamos 4 horas, no meio do nada, enquanto vacas saiam do meio do mato e cercavam nosso ônibus, até que um outro ônibus que vinha no sentido oposto do trajeto, tinha uma correia dentada reserva e emprestou para nosso motorista/mecânico, que conseguiu resolver o problema para seguirmos viagem. Um australiano que estava no ônibus, ficou mais perdido que cego em tiroteio, pois não falava porra nenhuma de espanhol e me fez ver que quem vai viajar achando que só inglês basta pra se virar em qualquer lugar, ta bem enrolado. Eu não falo quase nada de inglês, fico no nível pouco abaixo de Joel Santana, mas expliquei pra ele que tava todo mundo fodido. Seguimos viagem, e lá pelas 4 ou 5 da tarde, chegamos ao último posto do exercito paraguaio. Preenchemos papeis em vários locais, nova revista do exercito, e mais uma vez, depois de dizer que era do Brasil, aliviaram a nossa barra, e nem viram nossas mochilas.

Chegando na Bolívia, a primeira cidade, onde daríamos entrada, era em Ibibobo, e na imigração boliviana, em meio a porcos e galinhas, eu tava tenso pra caralho, por não saber se conseguiria entrar numa boa, porque em 2013 eu tava cansado pra caralho e toquei o foda-se na hora de sair da Bolívia, e não fiz os tramites legais, apenas atravessei a fronteira caminhando. Pra minha felicidade, tudo correu bem, apresentei o meu RG e ganhamos 30 dias para ficar na Bolívia. O ônibus seguiu viagem, e nos deram já do lado boliviano, comida mais uma vez, arroz e frango frito, que também tava bom pra cacete. Depois de discutir muito futebol com meus amigos paraguaios e colombiano, fomos chegando em Santa Cruz de la Sierra, às duas da manhã, terminando assim uma viagem de 18 horas, que levou 30 horas no fim das contas. Nos despedimos do colombiano Julian, que nos deu vários mapas e cartões de hosteis por cidades que iríamos, e fomos atrás de um lugar para dormir, e principalmente, tomar um banho. (continua no próximo domingo)

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Tentando achar o rumo de lugar nenhum.

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Cabildo.

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Protestos na praça principal de Assunção.

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Bandera Paraguaia.

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Sede do governo.

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Avenida Costanera.

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Depois da repressão, pausa para o descanso.

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Rio Paraguai e seus navios abandonados.

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Esculturas aleatórias.

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Transchaco, onde nosso onibus ficou 4 horas parado.

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Casa de cambio na fronteira Paraguai/Bolivia

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Imigração boliviana.

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2 Respostas para “Diários de viagem

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