O escarro da sobrevivência – Vítor Oliva

Minh’ alma tem fome, mas não tem pressa
Não leio best-sellers, e não digo amém
Não compactuo com qualquer orgulho patriota
Nem mesmo àquele que diz respeito à pátria de si mesmo
Nacionalismo é sinal de estupidez
Já somos tomados por egoísmo demais

Vocês leem, mas não absorvem
Ouvem, mas não escutam
Digitam, mas não falam entre si
Desejam calor humano, mas não se aproximam
Vocês estão ficando cada vez mais burros

E nessa eterna contradição
Acabamos por nos perder
E esse desalento, qual lâmina afiada
Em nossas respectivas jugulares
Acaba por nos ferir
Restando não mais que a frustração
Mais uma vez

Detesto risadas forçadas
A melancolia é necessária à sobrevivência humana
E do pó de onde viemos
Não haveremos de retornar
Pois não somos dignos de tal
Louvado seja o pó
Que se livrou de nós

Do fogo que alimentamos
Haveremos de nos queimar
Das brasas que correm sangue
Haveremos de dançar
E aderirmos à loucura
Que corrói-se dentro de cada um de nós
Suplicando fuga, diariamente
Enquanto ignoramos as evidências
Do óbvio, que é tão simples
É tão simples, meu amigo, o óbvio

Certas coisas são indescritíveis
e é melhor que sejam assim
Sou metade desgosto
Metade descontentamento
Onde foi parar o meu eu
Que ainda possuía um resquício
De alegria?

Minha existência se esvai
Pelas minhas próprias mãos
Me enganaram, do início ao fim
E hei de ser devorado pelos vermes
Que se esbaldarão na frieza de minha carne
Enquanto meu cerne permanece com a dúvida
Destinado a espernear junto ao eterno

O escopo da vida se dá pelo amar
Que é um lampejo de uma luz fraca
Atrás da neblina sombria que encobre o morro
Todo o resto é processo de morte
Desde o batismo ao escárnio da velhice
E a morte é a prova concreta
De que há o que se viver
De que a luz, mesmo oscilante, está lá

Entre amores e desamores, odiamos
Entre ódios e rancores, desintegramos
Mas se tudo que se faz de amor se destrói
Para onde vai o sentimento que corrói?
Para onde irá a dor que subsistirá?

 

escarro da sobrevivência

 

 

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