Como é Que eu Volto? – Platycyamus Regnellii

labirinto-automotivo

 

certa vez eu tive uma donzela
que gostava de mim
como gostava de tigres.

dei a ela um tigre de presente –
ela deve tê-lo até hoje.

fomos convidados,
eu e minha donzela,
para uma tarde divertida
com um amigo.

”eu sei o caminho”, disse a ela.

eu achava que sabia mesmo:
andamos muito à toa naquele dia,
quase tanto quanto os dois meses
que suportamos um ao outro;
talvez tenham sido três.

nós não conseguíamos achar a casa,
mas eu era o homem que sabia o caminho
e não podia dar o braço a torcer.

chegamos, enfim, a algum lugar:
era a casa de outro cara,
que eu nem fazia ideia que morava ali,
mas como já estava lá
sem saber aonde ir,
resolvi que era ali mesmo.

”mas não era na casa do Felipe
que estávamos indo”, ela disse.

”era sim”, eu disse.

então ela ligou pro Renato,
que veio nos buscar
e nos levou
ao ponto final do ônibus
que desembarcamos –
coincidentemente o local de sua morada.

hoje, num desses flashs
que surgem quando estamos desocupados,
eu me lembrei dela,
só não me recordo do seu sobrenome.

depois de andar 40 minutos perdido
na saída da boca –
que ficava a duas ruas
do meu ponto de partida –
o que mais tive foi tempo pra pensar.

pensar, entre outras coisas,
em como o tempo só tem me feito
piorar o senso de direção.

no sábado passado, curiosamente,
completaram um ano e três meses de namoro
esta moça sem sobrenome e o Renato:
você, assim como eu,
conclui que homens decentes não fazem poesia,
mas lembram o caminho de volta.

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