CONTOS DE QUINTA: Faber Castell

Era um sábado um tanto peculiar, eu e minha garota estávamos no shopping, ambos carregando mochilas pesadas com roupas e outros adereços, parecíamos duas tartarugas ninjas anãs vestindo uma das únicas cores de roupas que temos, preto, enquanto todo o resto caminhava com suas roupas de seda, vestidos que pareciam importados ilegalmente de Madagascar, blusas xadrez de quinhentos reais e assim por diante, eu achava tudo exótico, mas no fundo eu sabia que quem estava fora do nicho era eu, mas até ai tudo bem, já estava bem à vontade quanto a não me sentir à vontade.

O aniversário da minha pequena havia passado e eu queria comprar algo legal para arrancar dela o sorriso e o olhar de felicidade inocente que faz meus neurônios dançarem um xaxado de coturno, o meu coração retumbar tal qual tambor nas curimbas em madrugadas de sábado e os pilares de minha razão desabarem, restando só pó de lucidez em um maremoto de um sentimento sublime e inexplicável. É impressionante o que atitudes, reações e consequências podem fazer, em todas as instâncias e escalas. E é isso que eu buscava, atitude + reação + consequência.

Então entramos em uma loja de maquiagem e uma vendedora muito simpática (todas são) veio nos atender.

  • Oi, boa noite, posso ajudar?
    E a resposta chegou feito um raio para a moça
    -Não.

Tenho um receio surreal de entrar em lojas de shopping por causa dos vendedores, tenho muito medo deles, com suas caras simpáticas feito pandas felizes, cheios de bambu no bucho. Facilite para um urso panda puto da vida e te garanto que você voltará com alguns membros a menos ou no mínimo, com uma imagem não muito fofa dos peludinhos que encantam o mundo inteiro. Mas não teve jeito, uma hora precisamos da ajuda do panda que queria estuprar nossos bolsos, e com um sorriso de orelha a orelha (pois ela sabia que conseguiria me enrabar) ela prontamente apareceu mostrando diversos pincéis e bases e blushes e mais um monte de merda, que eu não fazia a mínima ideia do que eram, pra mim tudo parecia pincel da Faber Castell, daqueles que usávamos pra fazer artes abstratas nas aulas de educação artística do colégio. Eram coisas tão pequenas e simples, que eu em minha ignorância e inocência monumental, fui pegando as coisas que ela havia gostado, e outras a mais e jogando dentro da bolsa, cuja a função era armazenar a quantidade de varas que penetrariam no reto da carteira que eu não possuía (guardava meu dinheiro no plástico do RG desde que perdi a carteira em uma manhã virada de cachaçal), sem parcelas nem nada, e eu ainda enfrentaria uma singela fila para tal acontecimento, mas até então eu estava enfiando tudo na bolsa e não sabia o que me aguardava no final do túnel.

Finalizamos o preenchimento da bolsa com uns 10 itens de variados tamanhos e formatos e entramos na fila. Falamos de amenidades, esbarramos nossas mochilas em clientes pomposas e estressadas demais com alguma coisa que só ricas pomposas conseguem compreender. A loja era minúscula, mas as leis da física não existiam ali dentro, haviam mais pessoas que espaço e aquela lengalenga de “dois corpos não ocupam o mesmo espaço” caiu por terra ali dentro, todas aquelas pessoas eram resquícios da Black Friday que havia ocorrido no dia anterior. Acho que nunca ouvi tanto “dá licença” e “deixa eu passar por favor?”, na minha vida, mas algo mágico acontecia ao mesmo tempo, as vendedoras se locomoviam com tanta facilidade onde não havia espaço algum, que eu me perguntava se existia algum tipo de treinamento especial com Mestre Kami ou Yoda, ou então, algum buraco de minhoca, pois era humanamente impossível chegar do ponto A ao ponto B daquela loja na velocidade em que elas conseguiam, eu não conseguia decifrar o que estava acontecendo ali e seguiram esbarrando em nossas mochilas, pois elas já haviam se tornado quase parte do ambiente e esbarrar nela virou lei durante todo o período em que passamos dentro daquele cubículo enfeitiçado.

Desisti de entender qualquer coisa, pois minha vez de pagar havia chegado finalmente. Passei a bolsa para a caixa da loja que estava sorridente, eu também estava sorridente, acho que estávamos todos sorridentes, com exceção das pomposas estressadas. E então veio a notícia.

  • Senhor, o total foi de R$ XXX,XX (não interessa a vocês)
  • Oi? – Foi minha única resposta imediata que meu cérebro conseguiu formular.
  • O total senhor, foi de R$ XXX,XX.

Arregalei os olhos, peguei meu queixo no chão e olhei pra cara da minha parceira, peguei o queixo dela do chão, encaixei-o em sua boca e respirei fundo deixando minhas ideias voltarem pro lugar, pude ver partes da minha consciência voando pelo teto feito vagalumes alegres da Disney. Ela se ofereceu para pagar metade do valor, mas eu nunca consentiria, olhei bem nos olhos dela, na parte mais profunda do oceano de sua alma e senti uma paz, vi o contorno do seu rosto nos mínimos detalhes, poro por poro e me senti feliz pra caralho (havia algo de muito estranho naquela loja).

Puxei o dinheiro e paguei todos aqueles pincéis e tudo mais e se tivesse em melhores condições, comprava ainda mais coisa. Todo aquele dinheiro seria bebido e fumado em pouquíssimo tempo, o que não seria algo ruim, mas é bom variar as vezes e posso beber e fumar o resto.

Saímos da loja e então ela pulou em cima de mim e me beijou e então lá estavam o sorriso e o olhar que eu tanto amo. Toda aquela gente estranha e lojas e carros e seguranças e faxineiras desapareceram, assim como todos os seus problemas e crises e nós dois erámos só nós dois,
Duas tartarugas ninjas loucas de preto se beijando, felizes por tudo e por nada ao mesmo tempo.

Fomos comer em um restaurante caro comer e beber (aleluia), que se foda não é? Dinheiro é pra isso mesmo, gaste ou morra, morra ou gaste. Demos de cara com uma pequena fila de espera, um casal entrou na nossa frente na cara de pau, um baixinho com cara de babaca, galã de malhação com blusa polo roxa, de marca, é claro, uma calça jeans com aparência de velha (ele pagou mais por uma calça jeans nova com aparência de velha) e uma menina padrão 2014, vestido preto embalando o corpo a vácuo e cara de que não sabia onde estava, nem o porquê, achei que ela tinha cara de babaca também, mas deve ser por que a cara de babaca do seu acompanhante era tanta que vazou pra ela, coitada (mentira). Deixamos os dois enlatados passar pois estávamos de bom humor, muito bom humor. Entramos, sentamos no balcão e pedimos dois chopps belíssimos naquelas canecas 0º, eu bebi rápido demais, ela de menos. Em menos de cinco minutos uma mesa vagou e vieram nos chamar, o casal que furou fila continuou esperando, passei por eles, deixei uma flatulência grega e disse:

  • Deus tá vendo!

Ambos ficaram com cara de cu ainda sem saber que o meu acabara de deixar um presente para eles, nós seguimos até nossa mesa sorrindo e comemos feito maníacos. A vida estava boa e a paz reinava. Simba finalmente havia voltado pra pedra do rei e Scar se fodido. Hakuna Matata e tudo mais.

A única coisa que ainda me irrita desde então é a porra Faber Castell.

Autor: Saulo Matos

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