Toda acidez do filho da puta do amor!

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Há alguns anos, pelas minhas andanças ébrias e mirabolantes na monótona madrugada de uma cidade no interior do Rio de Janeiro, pela primeira vez me deparei com algo genuinamente surpreendente. Avistei à distância algo se esgueirando escuridão adentro, tive a impressão de que quem quer que fosse estava tão ou mais bêbado do que eu. Fui possuído por um sentimento de curiosidade e compaixão, incontrolável e involuntário. Quem seria aquela alma que vagava tão perdida quanto eu? Adiantei o passo, mas ao fazê-lo tropecei em alguns sacos de lixo que algum infeliz havia colocado junto à porcaria do poste, ninguém avisou que ali é ou deveria ser um ponto exclusivo para cachorros de quatro e duas patas? Era pra ser senso comum essa porra, ninguém respeita mais nada mesmo. Consegui me escorar na parede após algumas tropeçadas e aí tudo começou a girar numa velocidade além do que eu sou capaz de expressar, a zica veio como um tiro e golfei cerveja misturada com cachaça e amendoim torrado, mas num reflexo divino consegui errar meu pé. É do Brasil!

Comecei a me recompor na medida do possível e tentei fixar meu olhar em uma placa de “proibido estacionar” que se encontrava a uns cem metros dali, respirei fundo e fui andando tranquilamente, um pé depois do outro, uma pausa, uma respirada no ar poluído e assim por diante, na minha cabeça eu estava andando em linha reta, mas minha posição em direção ao meu referencial me dizia o contrário. Quando me aproximo da placa percebo que meu companheiro madrugador está escorado próximo a placa fazendo a mesma coisa que eu acabara de fazer instantes atrás nas portas de um mercado fechado, adicionando apenas o fato de que o filho da puta começou a mijar no próprio vômito logo em sequência e espalhou tudo, era como se não houvesse nada ali além de mijo, genial, por que eu não havia pensado nisso? Parei por ali e fiquei como um tarado estuprador observando a cena. O que estava acontecendo comigo? Era apenas mais um louco na rua, assim como eu.

Eis que a criatura se virou e então eu descobri o motivo. Era o amor em carne e osso que estava ali plantado fazendo merda. Assim que percebo me estatelo, questionando minha sanidade que nunca foi muito sana, age mais como “independência ou morte” do que qualquer outra coisa, alheia ao meu controle boa parte das vezes. Ele me olhou com ar de “estou bêbado, mas ainda dono da razão” e me fez tal questionamento:

  • Tá olhando o que maluco?

  • Você mijando na própria cagada que fez, não é óbvio? – Tentei bancar o malandro.

  • Não! – Amor, curto e grosso.

  • Então me desculpe, achei que fosse. Fato é que estou um tanto abismado por te encontrar em condições tão deploráveis e agora mais ainda ao te ouvir falando desse jeito.

Enquanto divagava em pensamento sobre minha surpresa indescritível, ele apalpava os bolsos à procura de alguma coisa, quase arrancou os bolsos de sua calça jeans surrada, tateou todos os bolsos de sua jaqueta até que no último bolso que restava procurar finalmente encontrou o que almejava tão avidamente, seus cigarros, que amor louco. Por um instante ignorou completamente minha presença, até que acendi um cigarro pra mim, é impressionante e inexplicável como ver outra pessoa fumando desperta em você uma vontade de fumar, também é assim com pessoas bocejando e/ou trepando, pelo menos comigo, mas enfim, acendi o meu e estendi meu isqueiro para que o pobre viciado pudesse também acender o dele. Tragou profundamente, como se não fumasse há meses ou anos, não parecia possível caber tanta fumaça dentro daqueles pulmões, mas coube. Enfiou meu isqueiro no bolso com a maior cara lavada que já vi na vida, resolvi ignorar essa porra, pois tinha mais um de reserva no bolso da camisa, não sei por que, mas tinha. Foi então que a prosa mais estapafúrdia da minha vida prosseguiu:

  • Então você é mais um daqueles fissurados com mania de romantizar a porra toda! Você queria que eu falasse como? Em latim? Grego Antigo? Vósmicê? Sinceramente achava de uns tempos pra cá que sua espécie já estava beirando a extinção, mas tenho que parar de esperar grandes feitos de vocês, uns querem foder todos quantos forem possíveis e uns esperam o príncipe no cavalo branco ou a bela adormecida, estão fodidos. Por isso prefiro os chimpanzés! Quantos anos o senhor Shakespeare tem? – Me cuspiu verbalmente na cara.
  • Tenho 20 anos. 20/11/1987 – Respondi derretendo aos poucos.

  • 20 anos na cara e você ainda acredita naquele papo de amor eterno e sagrado? Fico feliz por você, mas eu larguei essa vida. Quantas vezes nesses pobres anos de sua vida você já não deve ter me encontrado e em todas elas eu comi teu rabo e de mais uma infinidade de gente! Sou assim como você, parte amor, parte ódio, às vezes parte álcool e insanidade. Agrado a quem me agrada da minha maneira, maneira essa completamente inconstante. Esquece esse papo que a sociedade isso, a sociedade aquilo. A sociedade é um mar infindável de merda e ressaca. Estou tão aí para os padrões mecanizados e ultrapassados da sociedade quanto você, que está tão ou mais afundado na balbúrdia quanto eu. Deixe-me lhe fazer uma pergunta. Por que estás se escorando por aí a essa hora olhando anônimos mijando? Não tens nada melhor pra fazer? Algum lugar pra ir? Uma buceta pra foder ou um pau pra chupar? seja lá qual for sua preferência.

  • Merda cara, eu também queria muito saber por que estou aqui fazendo isso. O que tinha de melhor pra fazer, já fiz. Estava indo pra algum lugar até me deparar com você e gostaria muito de uma buceta, mas ultimamente elas parecem não estar gostando muito de mim.

  • Eu sei, e a resposta é bem simples: Você está bêbado, com manchas de vômito seco na sua camisa e não sei se você percebeu, mas seu cigarro já está no filtro, e estás assim porque você quer e também não se importa com a tal sociedade e os planos dela para o seu futuro. Então não me venha com esse pré-julgamento ridículo de quem sabe das coisas do universo pra cima de mim, você é um grão de areia sem serventia alguma, assim como todos os outros! Não me fode o juízo! – Esse maldito manja muito das coisas, gostaria que ele fosse ignorante e portador de um pouco de minha inocência.

  • Mas você é importante demais para sair por aí fazendo o que bem entende, como entende e quando entende. Você é o amor, eterno, não pode ser parte ódio e outras coisas. És grande demais para ser qualquer coisa diferente. – Falei hesitante, bêbados sempre insistem em suas asneiras, mesmo depois de humilhados e aleijados.

Nesse exato momento, começou a ecoar uma risada histérica por toda a avenida e o amor se contorcia de rir fazendo caras e bocas, gesticulando para si mesmo, e foi aí que eu percebi que o amor ficara completamente louco, ou eu. Preferi acreditar que era ele.

Quando finalmente parou de gargalhar, por falta de ar ou apenas por que a graça havia acabado, virou-se novamente para mim e começou a metralhar:

  • Pobre criatura, já caminha por essas bandas faz 20 anos e ainda não aprendeste nada sobre as criações divinas? Tudo que nasce tem seu oposto, porém não em outro ser ou outra existência, e sim em si mesmo, nossa existência é múltipla, diversos opostos dentro de uma única casca. Aprenda isto e tente ser uma pessoa mais despreocupada e desprendida destes dogmas de mão única. Tenho plena ciência da minha importância e justamente por isso fico de saco cheio algumas vezes. Você também é importante para muito mais pessoas do que imaginas e ainda assim estamos aqui, eu e você, nesta madrugada amargurada, jogando conversa fora e maltratando os pulmões. Existe algum sentido nisso? Para mim não, mas talvez mude a sua vida! – Mais uma vez fui calado.

Esse vagabundo me mostrou tudo que eu não estava preparado para saber, alguém está? A verdade é que nenhum de nós está pronto pra verdade, nem pra mentira e nem para nada. Fui incinerado pela realidade como napalm e minha reação foi não ter porcaria de reação alguma por um momento. Boa parte das vezes ter a resposta para suas dúvidas é a pior opção possível, não sobra espaço para esperança em terra de filhos da puta sábios. Depois de alguns minutos em silêncio, tragando outro cigarro, finalmente consegui recuperar minhas faculdades mentais e consegui esmiuçar meus pensamentos em uma resposta:

  • Creio que então esteja certo, já que não existe maneira de te convencer de que você deveria se portar da maneira que eu acredito, por mais que eu gostasse e precisasse que sim. Compreendo completamente o quanto é uma merda ter os outros dizendo o tempo todo o como, o quando e o porquê. Mas se você é realmente assim, não vejo mais o porquê de estar conversando nessa porra, — comecei a me alterar — está um frio do caralho e daqui a mais ou menos uma hora vai começar a amanhecer, obrigado pelas informações sulfúricas e vá também tomar no olho do rabo quando tiver tempo e parece que tens bastante, você, todos os seus opostos e essa porcaria de casca. Não passas de mais um moribundo perdido neste lugar abarrotado de putas santas, pedófilos de circo e engravatados sem alma. — Vociferei apontando o indicador como se fosse uma 9mm carregada.
  • É exatamente isso, um tanto difícil ser o amor todo poderoso e absoluto num lugar como esses não? Obrigado também sobre sua lição de como eu deveria ser, às vezes me esqueço, idiota! – Saiu virando como quem estava indo embora, mas girou tão rápido que eu não sei nem qual das mãos me acertou aquele cruzado pesadíssimo no meio da fuça.

Não senti dor, apenas apaguei, me estatelei no chão e ali fiquei não sei quanto tempo. Sonhei com ovelhas negras comendo uma grama peculiar, pontas de dedos humanos, achei uma graça incalculável daquilo de tão bizarro. As ovelhas tinham carinhas fofas, que normalmente ovelhas têm, enfim, sei que em algum momento do sonho eu comia as ovelhas. Era o fim da linha!

Acordei deste sonho alucinado para me deparar com uma realidade quase tão bizarra quanto, eu me encontrava no mesmo lugar onde havia caído após o cruzado, porém em minha perna direita havia um cachorro fazendo o que cachorros fazem de melhor, sarrando freneticamente, como se não houvesse amanhã e todas as cadelas do mundo tivessem sido arrebatadas pelo divino, QUE DIA!

Me levantei aos poucos e sem movimentos bruscos, primeiro a cabeça e o torço, sentei-me no chão e olhei para a cara cínica daquele tarado de quatro patas que me estuprava enquanto eu dormia, sorri pra ele e me lembrei de uma música brasileira de qualidade questionável que dizia o seguinte: “Se dormir, vai tomar dormindo”, pura poesia popular que eu vivenciava na pele e no pelo. Levantei por completo, o cachorro não gostou, mandei ele ir à merda em voz alta e percebi que o sol começava a surgir e não havia ninguém na rua. Glória a Deus!

Comecei a me deslocar calmamente rumo a minha casa, querida e única casa, às vezes dá para entender exatamente como o E.T. se sentia querendo ir embora. Conforme caminhava, com uma puta dor de cabeça, diga-se de passagem, percebi algo diferente em mim. Estava feliz apesar dos pesares, me sentindo leve, algo semelhante à liberdade, se é que isso existe de forma plena. Abandonei meus estigmas, mandei minhas algemas pro caralho, arranquei minha venda de princípios cegos e já estava começando a me desprender dos meus próprios dogmas.

Permaneci desta maneira durante uns loucos anos de minha vida após esse encontro surreal, e como foram loucos, mas não se engane, encontrei o amor outras vezes pela minha jornada, algumas vezes resolvi ignorá-lo por completo, outras nos cumprimentamos como desconhecidos completos, em outra tentei devolver o cruzado e errei, errei o primeiro mas acertei o segundo em cheio naquela porcaria de nariz perfeitinho. Mas são para outras histórias, fato é que hoje em dia estamos bem um com o outro, o respeito é mútuo, e até agora ninguém tentou foder ninguém.

Nos encontramos ontem e, após algumas cervejas, anos depois daquele fatídico encontro na madrugada fria de 2007, ele me revelou que estava passando por uma fase péssima em sua existência naqueles tempos. Eu já sabia e também passava por algo semelhante, então permaneci em silêncio bebericando e fumando, pensei em agradecer por aquele dia, cruzado incluso, mas não disse nada, apaguei o cigarro e fui ao banheiro, quando retorno ele havia desaparecido, não deixou nem sua parte da conta. Enfim, abri a boca:

  • Até a próxima seu grande filho da puta!

Sorri, enchi meu copo, o dele, brindei comigo mesmo, virei os dois e pedi mais uma.

Autor: Saulo Matos

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