CONTOS DE QUINTA – Programa de pai e filho (+18)

legovermelho

Depois de um tempo morando no litoral, você descobre que sua casa vira roteiro de férias de sua família e amigos. Todos planejam ir pra sua casa, mesmo sem saber muito bem se são bem vindos ou não. Não tenho nada contra receber amigos e parentes, até gosto, mas, quando eu os convido, não quando eles se convidam. Pode parecer que eu sou um cara extremamente chato e arrogante, o que talvez seja verdade, mas, a vida e a casa sendo minhas, me reservo os devidos direitos de tomar minhas decisões.

Meu pai havia me comunicado que iria passar alguns dias na minha casa, e tudo bem, sem problemas, afinal de contas, família é família. Depois de passar alguns dias se intrometendo até no que eu comia, no dia antes de ele ir embora, me encheu o saco pra irmos a um puteiro qualquer.

  • To bem tranquilo hein. – Disse ao velho.

  • Se tu não for comigo, vou sozinho. – Ele replicou.

E lá partimos nós. Eu conhecia alguns nuns becos da cidade e lá então começamos nossa peregrinação.

  • Pai, tu quer algo especial? – Perguntei.

  • Só que seja barato, não gasto mais que R$ 100 com puta alguma.

  • Beleza então. – Eu sabia que isso era mentira. – Vamos ver o que conseguimos.

  • Ok mas achamos o puteiro e vamos pra outro lugar tomar umas cervejas antes. Tu sabe como esses lugares são caros para beber.

Na verdade eu não sabia. Tinha apenas uma ideia. Nunca havia ido a um puteiro pra beber. E nunca nem me passou pela cabeça perguntar preços das bebidas.  Todavia, tinha amigos que me contavam ir a esses lugares apenas pra tomar uma cerveja pagando R$ 10 reais numa lata, só pra conversar. Posso julgar eles por isso? Nem um pouco, tem gente que paga R$ 300 por hora pra um psiquiatra fingir que escuta e receitar um tarja preta qualquer.

Fomos no melhor estilo sovina, de ônibus, pois nenhum de nós dois sabia dirigir, algo que certamente nos acrescentaria alguns anos de vida a mais, e mesmo que não acrescentasse porra nenhuma a mais de tempo em nossas vidas, ao menos evitava diminuir a vida de alguém que não tivesse nada a ver com tudo isso. Ambos vivíamos bêbados, e isso me lembrava que de fato o fruto não cai muito longe do pé.

Chegamos a rua que eu conhecia um ou outro lugar. Havia descoberto esses locais com umas dicas do meu velho quando eu era mais novo. Ele me ensinou que qualquer lugar com uma porta aberta e número grandes e na maioria das vezes vermelhos, era tiro certo. Você podia entrar sem medo, e desde que essa porção de conhecimento cósmico me foi transmitido, nunca errei. Então já sabe, fique atento aos números grandes. Se houver algo do tipo “Drinks para maiores de 18” então, não tem erro.

O primeiro lugar que subimos, eu já conhecia. Era uma escadariazinha cretina, que depois de dez ou doze degraus, tu já sentia o cheiro de incenso e via as luzes piscando. Portinha fechada, toca-se a campainha e lá vem uma garota seminua perguntar em que pode ajudar.

  • A gente queria conhecer a casa. – O velho disse.

  • Entrem meus amores, fiquem a vontade. MENINAS, TEM CLIENTE.

E lá vinham as putas desfilando de calcinha e sutiã. Meu pai sempre caiu de quatro pelas negras. A coisa que sempre me deixou mais desconfortável em um puteiro é esse lance das mulheres paradas como produtos. Mas eu não fiz as regras, apenas jogo o jogo.

  • E o cachê das meninas, quanto é? – Ele perguntou.

  • R$ 60 cada, meia hora. – A puta-mor respondeu.

  • Não faz duas por R$ 100?

Ela olhou com uma cara de surpresa. Eu interrompi:

  • Valeu, mas nada ai me agradou muito não.

  • Como assim? – Meu pai disse.

  • Não me agradou nada. Não curti. Prefiro dar mais uma volta, escolher um pouco melhor.

Ouvido isso as putinhas já foram circulando e eu indo em direção a porta. Seguimos o caminho. Peguei a esquerda numa ruazinha e chegamos em outro lugar que eu conhecia. Mesma coisa, escadas, incensos e o cheiro forte de perfume barato. Abriram a porta. Parecia atendimento padrão.

  • Boa noite, nós estamos só com uma menina atendendo no momento. – Disse a cafetina.

  • E quanto é? – Perguntou o velho.

  • R$ 60 trinta minutos, mas nós já estamos fechando.

  • Hum, entendo.

Então ela me olhou e disse:

  • Conheço você, você já veio aqui antes. Por que não voltou mais?

  • Não gostei do atendimento da Yasmim, ela é bem babaca.

  • Hum, você não é o primeiro que reclama dela. Pode deixar, vou ter uma conversinha com ela. Mas vê se volta, tem umas meninas novas que chegaram a pouco na cidade.

Porra, lá ia minha moral por água a baixo com meu pai. Ou na verdade ela poderia ter crescido um pouco.

  • Ok, vou ver se apareço um dia desses.

E seguimos.  Voltamos a rua principal dos puteiros, e começamos a caça do padrão número grande/drinks pra maiores/luzes piscando. Achamos uma portinha e subimos. Lá em cima, mesa de sinuca, meia dúzia de putas, uns caras mal encarados, uma jukebox tocando música de merda. Tudo normal. Eu detestava esse tipo de lugar, principalmente pela semi escuridão. Não se escolhe um produto que vai se pagar caro no escuro. Lembrei de uma frase que ouvia sempre o velho dizer: “No escuro, todos os gatos são pardos.” Nunca tive muita certeza do que essa merda queria dizer, mas acho que se aplicava a questão.

  • Oi amores, querem uma mesa? – Veio uma espécie de garçonete.

  • Não, na verdade estamos pesquisando custo/beneficio. – Meu pai falou.

  • Ok, então, as meninas cobram na base de R$ 150 a hora pelo programinha. Bem gostoso.

Bang, acima de R$ 100. Obrigado e blablabla, então seguimos.

  • Porra velho, to cansado já. Vamos tomar uma cerveja ali. – Apontei um restaurantezinho.

Pedi uma e dois copos limpos. Sempre peça copos limpos quando for a lugares sujos. Eles vão passar uma água e você vai sacar que todos os outros provavelmente estão tomando cerveja ou o que quer que seja em copos sujos. Não que isso mude alguma coisa, mas isso é sabedoria das ruas, isso não se compra em lugar algum.

  • E então, o que tu planeja da tua vida? – Meu pai puxou papo.

  • Realmente não faço a menor ideia. Gosto de cozinhar, gosto de escrever, gosto de beber, gosto de viajar. Vou tentar jogar essa porra toda num caldeirão e ver o que faço.

  • Até que parece um bom plano.

Nunca fomos muito de ter esses papos de pai pra filho. Normalmente um apenas enchia a cara com o outro e contava as conquistas. Aproveitei e contei a ele que tinha uma galera querendo editar um livro meu. Falei sobre as drogas, sobre as putas, os medos e tudo mais. É estranho, mas acho que nunca antes me senti tão filho do meu pai.

  • Bem, não atravessamos a cidade pra tomar cerveja. – Ele disse.

  • Vamos então descer essas duas ruas aqui.

  • O que vocês estão procurando? – Perguntou o dono do bar.

  • Ah, estamos atrás de umas putinhas baratas. – Meu pai respondeu.

  • Tem um aqui do lado, mas é coisa de R$ 150. Ai descendo ali você acha mais uns antros.

  • Poxa, valeu mesmo hein. – O velho agradeceu, pagou a conta e fomos.

A noite era fresca, e estávamos em um pedaço da rua que tinha um morro filho da puta pra subir. Sempre gostei de ser sedentário. De lá de cima dava pra ver o mar. Paramos e em uma prece silenciosa olhamos pra ele e fizemos uma continência. Seguimos. Então, uma casa, mesmo padrão. Portão aberto, e lá fomos nós.

A puta que nos atendeu tinha cara de estar chapada. Faltava um dente e tinha um bom par de peitos. Sotaque do nordeste. Meu pai começou a investigação.

  • Eu cobro R$ 60, mas atendo sozinha. Vocês vão querer me comer junto? Se for, faço R$ 100 os dois. Um me come enquanto eu chupo o outro.

Por um segundo interminável eu e meu pai nos olhamos. Eu podia sentir que ambos chegamos a pensar nisso, mas não, era de mais até pra nós dois.

  • Valeu mesmo. Agradeço sua disposição. – Falei.

A casa do lado, era verde, e tinha um número grande pintado na parede, branco, 62. Portão aberto. Eu já cansado. Não precisava mesmo comer ninguém. Aquilo tudo não tinha preço. Mas lá fomos nós, e me recordei do trecho do hino nacional que dizia: “Verás que um filho teu não foge a luta” ou qualquer coisa do tipo.

Uma gorda morena passada dos 40 nos atendeu. Entramos na casa e haviam mais duas mulheres. Uma loira e uma morena bem baixinha. Acho que por pouco não era anã. Ou talvez fosse, não tenho ideia da nota de corte para anões e não anões. Era ela. Falei pro meu pai:

  • Se quiser voltar lá e comer a da casa do lado, eu espero aqui.

  • Não, viemos juntos, vamos ficar juntos até o fim.

E lá fomos nós pro quarto. Nada de mais. Nada que valesse uma menção honrosa. Apenas um ou outro pedido pra eu ir com mais calma e os clássicos: “Me fode” e todo o clichê. Após a transa fui tomar outro banho e sentamos na sala. Fui ao jukebox e coloquei um Led Zeppelin. Ela veio com uma cerveja e começou a me perguntar sobre minhas tatuagens. Depois puxou papo e contei que queria ser escritor. Ela disse que também, que tinha um diário e tinha várias boas histórias. Ela queria saber quanto um escritor ganha. Eu também queria saber quanto um escritor ganha. Não pude ajuda-la. E então abre-se a porta do quarto e lá vem meu pai de mãos dadas com a loira, também na casa dos 40.

  • Vamos indo pai?- Falei.

  • Porra, ele é teu pai? – A baixinha perguntou.

  • É sim, ele veio conhecer a cidade.

  • E tu traz ele num puteiro?

  • Quer programa de pai e filho melhor que esse?

Todos rimos. A cafetina gorda, estava num bate papo na internet recrutando clientes. Tenha cuidado com salas de bate papo. Meu pai pagou a conta, não me cobraram a cerveja e seguimos nosso rumo.

Paramos em frente ao ponto do ônibus para mais uma cerveja.

  • Porra, to começando a ficar preocupado. – Disse o velho.

  • Que que ta pegando? – Perguntei preocupado.

  • Já é a quinta vez que eu brocho. – E então ele me contou as outras quatro.

Falei pra ele que isso era normal, que eu embora tendo menos da metade da idade dele também já havia passado por isso algumas vezes. Acho que isso lhe deixou mais tranquilo. A bebida não é uma boa parceira pra todos os momentos da vida. Era uma merda notar isso, mas era verdade.

No dia seguinte pela manhã ele voltou pra cidade dele. Eu fiquei na minha. Passamos alguns bons meses sem nos falar. Então liguei pra ele no dia dos pais.

  • E ai, como vão nossas meninas?

  • Nem sei, nunca mais fui lá. Agora sou um cara comprometido.  – Falei.

  • Bom, isso é bom. Tu não pode ficar solto muito tempo.

  • É verdade. – Sim, era verdade. Eu era um tanto quanto autodestrutivo.

  • Sabe, aquele dia foi legal. Sinto saudades de bebermos naquele boteco da rua de casa as vezes. – Contei pra ele.

  • Também sinto sua falta filho.

Silencio na linha.

  • Bem, é melhor tu desligar, essas chamadas de longa distância são caras.

  • Sim sim. Até mais.

E desde então não nos falamos muitas vezes.

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