Dois bêbados e séculos de existencialismo numa sentada

Era um dia de bienal do livro e, Heitor, que se divertia num bar em frente ao Centro de Convenções da cidade de Salvador com alguns amigos que não via há tempos, decidiu visitá-la após o encontro.

Pediu um táxi e foi cambaleando, quem sabe encontraria coisas boas? Gostava de explorar novos horizontes, era relativamente culto e gostava de ler. Também costumava ouvir boas músicas brasileiras.

Ubiratã estava sentado solitariamente num famoso café que recentemente havia sido instalado na bienal, e, por coincidência, estava também um tanto grogue de álcool quando Heitor se sentou ao seu lado.

“Que tá fazendo aqui cara? Não parece estar num clima literário.” — perguntou.

“Não sei.” — respondeu Ubiratã.

“A gente nunca sabe. Como se chama?

“Ubiratã, e você?”

“Heitor, prazer.” – disse estendendo a mão em forma de cumprimento.

“Boa resposta, Ubiratã. A gente nunca sabe de nada mesmo. Respeito homens sinceros.”

“Quer dizer, talvez eu saiba, mas é por saber que digo que não sei.”

“Argumente.” – disse num tom sério.

“Por que eu estou aqui? Pelo mesmo motivo de estar no cinema no sábado, no show na sexta feira, no trabalho na segunda ou numa viagem na quarta. Estou aqui, porque quero que algo faça sentido, quero estar em movimento. Não existe um só motivo. Só quero me forçar a viver, ainda que nada me estimule por inteiro.”

“Faz sentido. E isso te estimula de alguma forma?”

“Não.”

“Talvez tenha servido pra mim. Gostei de sua ideia. A partir de agora, já não me arrependo de ter vindo aqui. Estou vivendo algo que me acrescenta, você me parece um cara esperto, e eu gosto de suposições de caras espertos.”

“Obrigado, Heitor. Mas, me diga, não te dói existir? — perguntou Ubiratã num tiro.”

“Me dói não saber o que sou. Existir não me basta, mas me parece sensato.”

“Ser não é existir. Se não existíssemos, não seríamos. Insano, não?”

“Não sei de nada disso, só sei que eu temo a morte. – respondeu Heitou, evitando aquela viagem.”

“Como assim? Todo o estilo de um homem está na morte. Ela é o grand finale e a grande estreia ao mesmo tempo.”

“Tenho medo da vida, ela é uma prisão a céu aberto. Eu me incomodo com a superficialidade também, mas, porra, o que eu tenho é medo da morte. Queria fazer algo para mudar isso antes que ela chegasse, a bendita morte… Entendo o que diz, mas por outro lado, acho o mundo tão perfeito… E como assim estreia?”

“Estreia. Ué!”

“Numa outra vida? E se não existir nada depois?”

“O grande adeus, a estreia do fim.”

Heitor ficou intrigado por alguns instantes, mas, depois de alguns segundos, disse:

“Hum! Você é mesmo interessante, Ubiratã. Mas se não teme a morte e, pelo contrário, a admira, quer dizer que não teme que sua ausência não tenha importância?”

“Agora você me pegou. Não sei. Tenho em mim que entendo a morte. Me parece o motivo único da existência, além do nascimento.”

“Ah! Eu entendo que a morte talvez seja gloriosa para um alguém que marcou algo em vida, alguém que quando morrer vai causar um impacto, talvez num público restrito, talvez no mundo, mas fora isso, não vejo a morte como gloriosa. Se você não fizer por onde, a morte pode ser tão fodida…”

“Mas até a morte mais fodida tem sua beleza. Como disse Schopenhauer a “dor é a melhor coisa que se pode ter, ela te faz conferir a sua consciência física e psicológica, e devia ser vista de forma positiva”. É como se na dor de uma morte fodida você entendesse tudo e não precisasse de mais nada. Mais que algum sentido, acredito que seja mais necessário que exista glória na morte.”

“Dostoievski também gostava da dor. Esses caras, os russos, perceberam isso tão cedo…”

“E as pessoas, Heitor?”

“Quê que tem?”

“Que acha delas?”

“Sei lá, não gosto muito na maioria das vezes. Odeio falta de profundidade. ”

“Eu também. Outro dia parecia que ouvia mais que antes. Acho que estou ficando ranzinza. Não consigo mais deixar de condenar o que escuto por aí. Me irritavam seguindo padrões.”

“Acreditam que existe algum padrão que é verdadeiro.”

Heitor sorriu.

“Exato! Não entendem que não existem verdades. Relatividade não é algo ignorável.”

“Ignorância também não devia ser.”

“Me irritam suas ideias preconcebidas, sem se perguntar ao menos um simples “por quê?”. Imagina se começassem a se perguntar coisas do tipo “por que isso é certo, e isso é errado”, “por que um homem amar um homem é indigno se nem sabem o que é o amor? Imagina só.”

“Me irrita quando almejam coisas sem sentido. Toda aquela restrição das mentes…”

“Não é esse o meu ponto, cara. Meu ponto é: a faculdade é uma instituição, sua loja é um negócio e sua casa é uma residência própria, porque alguém quis que fosse. É tudo sólido demais, é tudo concreto demais. E tudo só porque alguém disse que seria. Parece loucura, mas isso me deixa atordoado, às vezes.”

“Ah cara! Antes tudo isso era uma espécie de direito inato para nós que formávamos grupos. Daí aconteceu a positivação do direito, que procurou fazer com que vivêssemos numa sociedade, criando normas fundamentais e tudo mais, o que tornou a faculdade uma instituição, a casa uma propriedade, e que criou novas restrições para melhor convívio em espécie. Isso me parece um bom argumento. Você pode pensar que isso nunca fez parte do universo e não devia fazer. Você pode discordar, mas o mundo é da maioria. Você aceita o que quer e respeita o que deve respeitar ou o que acha que deve, se tiver estilo e bom senso.”

“Jovem, é tudo um teste do universo. Tudo que temos como verdade pode ser uma enorme coincidência, porque a verdade absoluta não existe. A glória existe, o medo existe, mas a verdade absoluta não.”

“Eu fico puto com essas coisas, Ubiratã! Acho que nunca vou entender o mundo.”

“É aí que está o charme dele, Heitor! Ele não faz sentido, ele simplesmente é. Nós somos educados de uma forma positivista e científica, mas quando você viaja nas profundezas da existência vê que o sentido não é necessário.”

Aos poucos a conversa voltara a sobriedade, e logo o efeito da bebida se fora e eles, restando somente o tédio das suas opiniões. Logo nem lembravam mais que haviam bebido.

Heitor, bastante entretido, pausou rapidamente o diálogo, pediu um café e continuou:

“Eu não quero o sentido. Só queria entender como tudo funciona, como tudo se formou. O sentido é só um algo mais.”

“Hum! Eu também gostaria. O existir me fascina.”

“É engraçado como estamos aqui e, do nada, seremos puxados para a vida normal. Amanhã, teremos obrigações, deveres e horários. Eu queria ser rico e ficar flutuando pelo mundo inteiro numa asa delta com motor potente e gasolina eterna.”

“Queria não me importar com motivos e necessidades. Queria que eu fosse minha melhor forma de entretenimento. Eu até luto para que consiga ser. É difícil, acredite. Mas como disse, talvez marcar alguma coisa seja importante.”

“Tenho que ir cara, foi um prazer te conhecer, mas sabe como é, tenho que ir…”

“Igualmente… vai lá, pode deixar que eu pago a conta. O prazer foi meu.”

Heitor pensou em se suicidar naquele dia, mas não o fez. Escreveu uma carta no auge da sua lucidez:

Viver não me basta, e é por ter esse vazio no peito que parto daqui, de Salvador, rumo ao caminho da busca eterna pela glória, rumo ao encontro do fim perfeito. Esperando que assim eu entenda tudo que nunca fez sentido”.

Seria um belo ponto final, se ele não mudasse de ideia e decidisse que seria melhor viver tentando quebrar paradigmas da sua mente. Passou a tentar somente fugir do concreto, queria se achar em si mesmo. A morte se tornara somente detalhe que findava a vida.

Ubiratã decidira se esforçar para se tornar o mais marcante possível, a partir daquele dia, se dedicaria a busca do sentido da sua existência através de propósitos.

Os dois morreram tentando.

 

 

 

Anúncios

2 Respostas para “Dois bêbados e séculos de existencialismo numa sentada

  1. O mais louco – ou o mais lúcido – de tudo isso é que: me sinto Ubiratã, assim como me sinto Geraldo. No fim, acho que todos somos interligados por uma linha invisível, todos somos um vestígio do outro – por menor que seja.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s