Há um mundo cruel lá fora Chispita!

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Eram quatro da manhã, a cama estava tão confortável quanto era possível estar e o papo fluía perfeitamente naquele quarto completamente escuro, parecia que estávamos deitados no espaço flutuando por ai com todas as estrelas apagadas.  Além das nossas vozes, o único som presente era o do ventilador nos abençoando com aquele vento gostoso nas partes íntimas e girando pra tudo ficar bem distribuído. O cabelo dela as vezes voava nos meus olhos e no meu rosto, mas estava tudo bem, eu ainda estava chapado e ela também e pra ser sincero não lembro muito bem qual era o assunto de que estávamos falando, mas não importa, o que importa é que estávamos trancados em um quarto escuro e ao mesmo tempo conhecendo as bordas invisíveis do universo. Então um mosquito zuniu e atrapalhou toda a viagem. Me pergunto diariamente sobre qual é a medida da força de um mosquito, deve ser algo fenomenal, equiparável em proporção com algum titã esquecido, não é possível! Pense comigo:

um mosquito tem um tamanho X voando em direção Y oposta ao ventilador que exerce uma força Z que pode variar por modelo de ventilador, mas independente da potência do vento a porcaria do filho da puta do mosquito sempre acha uma maneira de voar contra Z independente de X para chegar no produto final, que somos nós, isso ainda permanece pra mim um dos maiores mistérios do universo, deve existir uma explicação bem e eu que não me dei o trabalho de procurar, isso sem nem comentar sobre os mosquitos que sobrevivem a tapas e petelecos, é realmente um mundo bem complicado de viver se você é um humano.

O mosquito zuniu novamente e então senti uma dor excruciante bem no saco, e logo quando minha visão estava começando a se adaptar a escuridão e discernir algumas formas no quarto, como as cortinas, a escrivaninha e meus pés, fiquei cego instantaneamente e fui transportado para uma negritude nem um pouco agradável e aconchegante. Ouvi um voz ao longe pedindo desculpas e rindo desesperadamente e depois um novo pedido de desculpas, ao que parece, ela tentou acertar um mosquito que zunia no breu, errou e me tirou o direito de viver por alguns segundos, como os mosquitos aguentam? Como esses filhos da puta conseguem?

Recuperei a visão e a consciência aos poucos e com muito custo, respirei fundo e senti meus arredores, tirei as mãos do saco bem devagar e então sua voz finalmente estava perto e as risadas haviam cessado. A vida retornava ao meu corpo e minha alma também.

– Desculpa meu amor. – Ela disse

– Tudo bem querida, não espere filhos de mim, mas tudo bem, o que que aconteceu, foi a caralha do mosquito? – Eu disse, com muito mais calma do que de costume, a voz dela tinha esse poder comigo.

– Sim, estava enchendo o saco zunindo e no impulso tentei acabar com esse filho da puta. – Ela falava e ria. – Desculpa mesmo amor, melhorou?

– Sim, vamos fazer o seguinte para que todos fiquemos seguros, menos o mosquito, pega o SBP lá na cozinha. – Dei uma solução prática, simples e a prova de acidentes para o meu bem.

– Mas antes só preciso fazer uma coisinha. – ela sussurrou no meu ouvido.

senti o corpo dela deslizar sob os lençóis da cama e sua mão lentamente subiu pela minha perna, passou feito ceda pela minha virilha e lentamente tocou meu pau (ou piru, ou pênis, piroca, caceta, manjiroba ou qualquer nome que você conheça) e começou a acariciá-lo lentamente, como se todos os relógios do mundo e o próprio tempo não existissem ou fossem regidos pelos movimentos da sua mão que de tão suave e doce parecia ser outra coisa, outra coisa que eu não tenho a capacidade mental de explicar, o mundo era bom afinal, sim, o mundo era bom pra caralho! Fechei os olhos e senti seus seios encostarem e minha coxa enquanto ela virava o seu corpo para cima do meu, tudo estava escuro mas no momento que eu senti o toque do seu seio, eu pude ver, mesmo de olhos fechados, era como se eu presenciasse o big bang e do nada, da escuridão, do vácuo e do nada nascesse tudo o que conhecemos e que não conhecemos, me senti sublime e os movimentos sutis aos poucos foram tornando-se mais rápidos e violentos,  era maravilhoso e me irritava saber que existem pessoas que dizem que Deus não existe. Senti os seus cabelos em minha barriga, se esparramando aos poucos enquanto sua cabeça descia em direção a minha (de baixo), ela tinha os cabelos mais lisos e lindos que eu já havia visto na vida inteira e descrever a sensação que eles exercem junto com todo o outro conjunto de ações é impossível. Sua boca finalmente encontrou o que procurava e seus lábios molhados receberam as boas vindas e antes que o primeiro movimento completo acontecesse um grunhido estarrecedor tomou conta da casa.

– Meu DEUS! Que foi isso? – Ela disse ofegante

– Puta merda, caralho, porra! É Chispita! (nossa gata de cinco meses) – Gritei meio desnorteado enquanto levantava.

Saí correndo, tendo esquecido completamente que estava pelado e de pau duro, abri a porta do quarto, o coração estava a mil por hora, pelo susto, pelo boquete interrompido e de preocupação, não sei como não morri. Atravessei o corredor e então a gata se jogou pelas grades porta adentro, não dei importância pra ela, abri a porta da casa e saí pra rua para descobrir que merda tinha acontecido e quem tinha violentado a porra da minha gata. Nós morávamos em um condomínio e então me lembrei finalmente que estava nu (o pau já dormia tranquilo), voltei correndo pra casa e vesti uma bermuda azul escrota que estava jogada no sofá sem cueca mesmo, vi minha garota com Chispita, não sei quem aparentava estar mais nervosa. Me aproximei das duas com calma e disse que estava tudo bem, faltava um tufo de pelo na gata, mas fora isso estava tudo bem mesmo. Fui para a rua novamente e avistei dois gatos adultos e parrudos, desgraçados, pensei em matá-los, mas logo a vontade passou, sou contra matar qualquer coisa que seja, mas as vezes dá vontade de matar, não me julgue. Joguei umas pedras nos dois, que saíram correndo. Uma das pedras que arremessei atingiu a janela de um dos nossos vizinhos, não quebrou, mas foi o suficiente para que eu corresse também.

Entrei em casa, tranquei a porta e a janela para que Chispita não fosse mais para rua naquela madrugada e voltei para o quarto onde minha musa já se encontrava deitada e para minha tristeza, completamente vestida.

– Baby, onde está a gata? – indaguei

– Não sei amor, fui ao banheiro e quando voltei ela tinha sumido. – fui informado

– CARALHO! – esbravejei.

Acendi um cigarro e fui até a varanda de trás, dei uma vasculhada e nada da gata, procurei no meio das lixeiras, dos entulhos, no mato, fui na rua de novo e nada também, não deve ser difícil de imaginar que minha paciência estava na corda bamba carregando um rei momo nas costas, um urso polar no colo e uma família de suricatos na cabeça enquanto pedalava um monociclo. Me dirigi até a varanda novamente, parei e tentei curtir o cigarro na medida do possível, pensei no fim do mundo e em como ele demorava a acontecer, estava com 27 e já havia passado por quatro possíveis datas de apocalipse, mas nada nunca aconteceu além de festas dos mais variados tipos, imagino se um dia o fim realmente chegar, e tivermos a ciência e a certeza da iminência do mesmo se daríamos tantas festas realmente, algo me diz que não. As igrejas estariam lotadas de pessoas querendo perdão aos 45 do segundo tempo, seria engraçado, acho que ocorreriam festas sim, mas só os loucos de pedra, os suicidas, os viciados estariam presentes, e talvez eu e você, ou talvez não. Morrer entorpecido, partir ébrio e alucinado não parece ser uma maneira tão ruim de conhecer outros planos. Que venham as festas do apocalipse, consumam o quanto puderem de tudo que quiserem, façam de tudo, a ressaca não existirá, pois estaremos todos mortos. Assim será o cartaz, uma bela e tentadora festa de fato!

Terminei o fumo e apaguei meus pensamentos cretinos sobre o fim de todas as coisas e voltei pro meu mundo maravilhoso que eu não queria que acabasse de jeito nenhum, naquele momento percebi (mais uma vez) o quanto eu penso e falo merda das quais eu não faço a mínima ideia, um completo idiota e aleijado mental. Entrei no quarto e ela me disse:

– Amor, Chispita está debaixo da cama.

Abaixei e tentei distinguir um gato dentre todas as coisas que existiam ali embaixo e não consegui. Subi na cama, beijei minha diva, desejei-lhe boa noite, senti o ar pelos meus pulmões, o cheiro do quarto, a textura dos lençóis da cama, o gosto da minha saliva e agradeci a Deus por tudo e fechei os olhos para esperar Morpheus me levar. Tenho a “mania” de tentar sentir tudo que meus sentidos são capazes de captar antes de dormir para saber como é estar vivo, mas é realmente sentir e não deixar que os sentidos trabalhem automaticamente para você, isso não é estar vivo.

Finalmente estava nos braços de Morpheus sendo levado para o seu reino de esplendor onírico e quando suas portas estavam se abrindo ele me deixou cair, tentei agarrar em alguma coisa mas não consegui. Abri os olhos e Chispita estava se ajeitando para dormir sobre a minha barriga, levantei o torço e a peguei no colo como uma mãe que pega um bebê.

– Chispita meu bem, não queria ter que falar dessas coisas com você tão cedo, mas acho que já é quase tarde demais, você ainda é um bebê aos meus olhos, mas lá fora, lá fora o mundo é cruel, sujo e com dentes muito maiores que os seus e pra eles você é apenas mais um pedacinho de carne e quatro patas. Ninguém quer saber suas origens, o que você pensa e de uns tempos pra cá nem quantos anos você tem. Se és possuidora de algo que interessa para alguém mais poderoso que você, fuja, corra para longe, venha pra casa. Um dia você vai aprender de tudo um pouco, que as vezes é preciso ser cruel, falsa, sincericida, filha da puta e outras vezes doce, sensível e humilde, nosso instinto de sobrevivência é um malandro de bar dos piores. O mundo é cruel e as realidades que existem da porta pra fora são diferentes das que existem aqui, o mundo é cruel e você descobriu na marra, isso vai te fortalecer mais tarde, mas agora vamos dormir pois amanhã é um novo dia e belo dia.

Enquanto eu falava tudo isso, Chispita me encarava sem piscar os olhos em nenhum momento, quando acabei de falar fiz um cafuné e ela me respondeu:

– Miau.

Eu olhei de volta no fundo daquela pupila mais negra que a escuridão do quarto e pensei sobre minha vida, minha infância e em como as coisas haviam mudado desde então. O mundo estava ficando cada vez mais louco realmente e então Chispita como se lesse meus pensamentos novamente indagou:

– Miau?

Então eu voltei a si e percebi que estava falando com minha gata e refletindo sobre coisas passadas às cinco horas da manhã, algo que completamente normal.

– Miau. – Respondi

Foi um miau de boa noite e ela entendeu perfeitamente o recado, recostou sua cabeça sobre minha barriga e então dormimos os três sem mais incômodos, transtornos, surpresas e mosquitos Graças a Deus. O mundo estava ficando realmente muito doido porta a fora, mas ainda bem que por aqui continua tudo normal, amém.

Saulo Matos

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